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Ponderações
de um vegano - Parte I
Este texto promove ponderações
a respeito do vegetarianismo, de um ponto de vista sobre o qual
falo com franqueza. Sendo assim, que o leitor e a leitora reflitam
e julguem, por si mesmos, o conhecimento aqui abordado.
Na humanidade sempre existiram pessoas que adotaram o vegetarianismo por várias
razões, como, por exemplo, questões científicas, éticas,
morais, ecológicas, religiosas e/ou metafísicas, filosóficas
etc., todas de grande importância para seus praticantes!
Ao ser humano, é sabido que a qualidade de ser equânime é sentida
segundo a sua capacidade de experimentá-la emocionalmente e compreendê-la
racionalmente. A partir daí, ele a assimila como lhe aprouver.
Em particular, o veganismo (um aprofundamento do vegetarianismo), é uma
filosofia de vida que exerce um boicote mais profundo às atividades que
contribuem para a desnecessária exploração animal. Eu, Charles,
estou consciente de que, mesmo não sendo capaz de ser 100% vegano na sociedade
moderna, procuro não satisfazer os meus sentidos de percepção
sensorial com coisas desnecessárias – que promovem o sofrimento
de seres incapazes de falarem por si mesmos – os animais. Sempre busquei
um significado mais profícuo e lúcido às preocupações
que tenho na vida. Entendi que o veganismo preenche uma demanda necessária
para minimizar a exploração animal, portanto, tornei-me vegano
no dia 23 de janeiro de 2001, embora já praticasse o vegetarianismo há sete
anos, como lacto-vegetariano.
Por mais importantes ou simples que sejam, penso que quaisquer atitudes tomadas
pelas pessoas onívoras ou vegetarianas apresentam motivos conscientes
ou inconscientes de sua índole. Daí é importante ressaltar
para qualquer tipo de vegetariano o seguinte raciocínio: "procure
analisar minuciosamente os seus motivos e decida até que ponto você está realmente
disposto a praticar o vegetarianismo, porque, de acordo com as tendências
que possam aparecer, a pessoa tem o direito de traçar os limites de sua
prática de uma maneira equilibrada, ou seja, sem se deixar levar pelo
comodismo do gozo dos sentidos e sem se encantar pela sedução do
fanatismo de querer impor aos outros o vegetarianismo.
Como em qualquer situação que se encontre, os vegetarianos acabam
encontrando dificuldades que precisam saber resolver e tendências (comodistas
ou fanáticas) que precisam desdenhar!
Segundo o dicionário Aurélio, a palavra comodismo designa atitude
de quem atende, acima de tudo, à própria comodidade (isto representa
egoísmo), e a palavra fanatismo designa a atitude de quem se inspira cegamente
a qualquer ideologia, ou seja, o fanático gera absolutismo desnecessário à sua
postura.
Parece muito difícil ser vegetariano diante da incompreensão de
muitos onívoros. Entretanto, o vegetariano autêntico é estrito
consigo mesmo, porém, educado com os outros e tolerante com aqueles que
o compreendem mal. O bom exemplo sempre é melhor que o preceito. Também
cabe ao vegetariano ter mente aberta e não impor o vegetarianismo a ninguém.
Sem querer generalizar, tenho que dizer isto entre aspas: "alguns" praticantes
do vegetarianismo se consideram melhor que os onívoros por causa disso
ou daquilo, e "alguns" veganos, crudívoros e frugívoros
se consideram melhor que os ovo-lacto-vegetarianos, ovo-vegetarianos e lacto-vegetarianos
pelo fato de se aprofundarem na prática do vegetarianismo – isto
está longe da maturidade consciencial de um verdadeiro praticante do vegetarianismo!
Sei que este assunto gera polêmicas, divide os praticantes e levanta muitas
discussões, sobretudo, nós não podemos considerar que apenas
a adoção do vegetarianismo, independentemente da classificação
vegetariana a ser seguida, seja a única coisa para melhorar o mundo, embora
isto seja uma das diversas questões para aprimorá-lo, e uma das
características significativas para granjear a benevolência alheia.
Todos os tipos de vegetarianos estão fazendo a sua parte. Às vezes,
ocorrem ofensas, intrigas e picuinhas entre os onívoros e os vegetarianos,
e também entre os próprios vegetarianos, já que há praticantes
distintos, e sei que essa situação pode, dependendo do contexto,
ficar difícil de controlar. Todavia, ninguém pode se considerar
melhor do que o outro: onde está a humildade? A vaidade é uma praga
na mente daqueles que se acham os donos da verdade, os quais se exibem como se
fossem heróis. É claro que alguns onívoros implicam com
os vegetarianos, mas o contrário também acontece – ambos
devem controlar os seus impulsos com a prática da tolerância: é uma
questão de bom senso e autocrítica!
Eis outra reflexão incômoda: a superação de qualquer
tipo de extremismo ou agressividade exige soluções muito mais complexas
do que a prática do vegetarianismo. Este assunto tem a ver com o vandalismo,
a rebeldia e a violência. A falta de amadurecimento é a razão
pela qual possibilita explicar o fato de alguns extremistas, que adotaram o vegetarianismo,
jogarem bombas em restaurantes que vendem alimentos cárneos, depredarem
ou incendiarem lojas do McDonald's, espancarem cientistas que fazem vivissecção
com os indefesos animais só porque defendem a idéia de que todos
devem parar de explorar os bichos. No momento em que se fazem ataques como esses,
tais vândalos se colocam no mesmo nível que os açougueiros
e vivisseccionistas, ou até mesmo pior que eles! Ser a favor do vegetarianismo é uma
coisa muito diferente do que ser a favor da violência, isto já é o
suficiente para saber que o vegetarianismo é uma tendência pacífica
e não uma tendência incoerente.
Para qualquer praticante sincero do vegetarianismo, é evidente que o mesmo
não se pode conciliar com a desnecessária violência. Caso
contrário, nenhuma melhoria será possível no desenvolvimento
desta consciência. Certa vez, Gandhi disse: "O amor é a força
mais abstrata e também a mais potente que há no mundo.(...) Só podemos
vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio." Essas máximas
expressam uma verdade irrefutável, apesar de parecer demagogia para alguns!
A inutilidade da "barbárie intencional", como forma para tentar
suprimir a violência desnecessária imposta aos animais, é tão
evidente que só mesmo uma pessoa de mente fechada para não reconhecê-la
como tal.
Devemos nos opor à violência desnecessária que alguns vândalos
adotaram como forma de impedir o sofrimento dos animais. É mais justo
boicotar, fazer protestos simbólicos através de estampas de camisas,
distribuir panfletos, promover diálogos, palestras, encontros fraternos
com direitos a lanches, almoços, jantares ou qualquer outro meio pacífico
de promover o vegetarianismo do que utilizar meios violentos que só tendem
a prejudicar mais ainda as coisas. O que os leigos no assunto do vegetarianismo
irão achar dos maus exemplos de alguns ativistas que comprometem o vegetarianismo?
Caro leitor, cara leitora, vocês estão entendendo a situação
desconcertante? Alguém sem conhecimento de causa e efeito das atividades
violentas se engana facilmente ao pensar que os meios violentos podem servir à benevolência
dos animais como uma maneira de modificar as condições miseráveis
que são impostas aos mesmos.
Atividades antiéticas imposta aos animais combatem-se com amor, com argumentos,
com boicote e com denúncias... e não com violência! O amor
já foi explicado com simplicidade por Gandhi no nono parágrafo
deste artigo. Os argumentos representam uma das formas para protestar contra
a exploração animal. O boicote nos dá força para
não nos acomodarmos em vários costumes de gozo dos sentidos. As
denúncias chocam as pessoas à realidade, fazendo-as refletir sobre
o fingimento cínico dos coniventes com a exploração dos
bichos!
Por Charles de Freitas Lima (Professor de Educação Física).
E-mail: charles@guiavegano.com
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