
 |
Entrevistas
|
 |
Comportamento
|
 |
Culinária
|
 |
Ecologia
|
 |
Olhar Verde
|
 |
Nutrição |
|
Ponderações
de um vegano - Parte II
É sabido que a vã tentativa de algumas pessoas tentarem denegrir
a filosofia de vida do vegetarianismo, com suas tagarelices recheadas de palavras
floridas, é uma insensatez descabida, da qual, infelizmente, nossos
negadores participam. Muitos vêm discordando do vegetarianismo com argumentos
que favoreçam sua própria inexperiência do assunto, mas
nenhum desses argumentos resiste a uma avaliação correta realizada
com minúcia e clareza. A quem o presente texto não importa, basta
constatar com mais objetividade a essência deste artigo. E para isso
ocorrer, talvez seja preciso a coragem de ser fidedigno numa compreensão
verdadeira e inescapável daqueles que realmente se preocupam com a benevolência
alheia estendida não só aos seres humanos, mas também
a outros seres vivos!
Na Internet, há alguns textos tendenciosos e subjetivos, tentando refutar
os vegetarianos e outros ativistas dos direitos animais, afirmando que não
dá para levar a sério o movimento de defesa dos direitos animais
como uma oposição legítima com a qual é preciso
discutir e dialogar por causa das falhas de alguns praticantes desequilibrados
do vegetarianismo/veganismo. É verdade que "alguns destes ativistas" mostram-se
negligentes com o equilíbrio que deveriam ter em suas respectivas posturas,
mas isto não quer dizer que o vegetarianismo seja mais um "ismo" praticado
por fanáticos. As críticas dos nossos negadores deveriam ser
feitas somente às pessoas que queimam o filme dos direitos animais,
e não ao movimento como um todo, pois a generalização
desses julgamentos serve para afastar as pessoas da proteção
aos animais. É lastimável que os nossos detratores se aproveitem
dos erros de algumas pessoas para julgar os vegetarianos e outros ativistas
como se fossem farinha do mesmo saco e, ao mesmo tempo, reivindicarem a superioridade
do homem sobre o animal para legitimar sua exploração. Nós,
seres humanos, não estamos com essa bola toda: chega de tanto especismo!
Assim como nós, os animais são seres suscetíveis à dor
e a outros sofrimentos por motivos estabelecidos pela equivocada premissa de
que os animais devem ser explorados pelo ser humano. Neste sentido, a dita
superioridade do homem sobre as outras espécies é baseada numa
consciência negativa e mesquinha: um erro que só serve para maltratar
os animais e satisfazer os sentidos dos materialistas. É de suma importância
promovermos bondade para com os seres vivos através da eqüanimidade
e não como nossos negadores querem salientar, que os animais devam ser
explorados para satisfazer os desejos de comer os seus restos cadavéricos,
que suas peles sirvam para fazer vestimentas e satisfazer a orgulhosa vaidade
de inúmeras pessoas apegadas ao corpo físico, que seus corpos
sirvam à vivissecção em testes laboratoriais, que o leite
de outras espécies sirva para alimentar inúmeras pessoas adultas
que inventaram a mania de tomar leite depois do período de amamentação:
acaso alguém já viu um boi mamando? Isso para não mencionar
que 70% da população adulta no mundo sofre de intolerância à lactose,
segundo o jornal da Sociedade Americana de Nutrição Clínica.
Os vegetarianos e os onívoros que optarem por uma "mente aberta" podem
refletir melhor sobre o assunto plantando uma semente na consciência
que possibilite um manifesto de lucidez às questões relevantes
que o vegetarianismo propõe como ponderação de "equilíbrio" para
os praticantes(?) e, quem sabe, como para a prática propriamente dita
para os onívoros!
Existe uma história interessante ocorrida na década de 50, com
os negros americanos do Estados do Sul dos EUA, como Alabama, Geórgia,
Mississipi etc. Eles só podiam sentar-se nos bancos traseiros dos ônibus.
Certo dia, uma senhora negra sentou-se num banco da frente, e foi agredida
e expulsa do ônibus. No domingo seguinte, o cristão vegetariano
Martin Luther King iniciou um movimento de boicote aos ônibus, movimento
esse que obteve total adesão dos negros, até mesmo dos outros
Estados sulistas. Onze meses depois do início do boicote, durante o
qual os negros não andaram de ônibus, os políticos, pressionados
pelos proprietários das empresas, votaram uma Lei que proibia a discriminação
racial nos meios de transporte. Essa história mostra o quanto é importante
o boicote como um protesto pacífico. Embora a atenção
no que se refere às coisas que os vegetarianos boicotam seja para a
satisfação dos sentidos dos onívoros, levo em consideração
que elas devam ter uma ligação atualizada e coerente com a benevolência
alheia estendida aos animais, para não incorrermos na flagrante e desnecessária
exploração dos mesmos!
Vou finalizar este artigo com um trecho de Peter Singer em seu "Libertação
Animal", no prefácio à edição de 1990: "Seria
um erro trágico se mesmo um pequeno segmento do movimento de Libertação
Animal tentasse alcançar seus objetivos ferindo pessoas. Alguns acreditam
que pessoas que fazem os animais sofrer merecem que também se os façam
sofrer. Não acredito em vingança; mas mesmo que acreditasse,
seria um desvio prejudicial à nossa tarefa de fazer cessar o sofrimento.
Para tanto, precisamos mudar a mentalidade das pessoas sensatas de nossa sociedade.
Podemos estar convictos de que uma pessoa que maltrata os animais é completamente
insensível, mas nos rebaixaríamos até seu nível
se a feríssimos ou ameaçássemos feri-la fisicamente. Violência
só pode gerar mais violência – um clichê, mas cuja
trágica verdade pode ser vista em meia dúzia de conflitos ao
redor do mundo. A força da causa da Libertação Animal
reside em seu compromisso ético; ocupamos o elevado terreno moral. Abandoná-lo é fazer
o jogo dos que se nos opõem.(...) A alternativa ao caminho da crescente
violência é seguir a liderança dos dois maiores - e não
por acaso, mais bem-sucedidos - líderes dos movimentos de libertação
dos tempos modernos: Gandhi e Martin Luther King. Com imensa coragem e resolução
eles se mantiveram fiéis ao princípio da não-violência,
apesar das provocações e, muitas vezes, ataques de seus opositores.
Por fim, tiveram sucesso porque a justiça de sua causa não podia
ser negada, e seu comportamento tocou a consciência até mesmo
dos que a eles se opuseram. Os males que infligimos a outras espécies
são igualmente inegáveis, quando vistos com clareza; e é na
justeza da nossa causa, e não no medo de nossas bombas, que residem
as nossas possibilidades de vitória."
A averiguação intelectual do que escrevi é uma questão
de critérios – muitos lêem e interpretam de diferentes maneiras,
segundo suas próprias reflexões!
Por Charles de Freitas Lima (Professor de Educação
Física).
E-mail: charles@guiavegano.com
O pensamento vivo de Gandhi. São Paulo: Martin
Claret, 1991. 110 p. Autor desconhecido.
SINGER, Peter. Libertação Animal. 1ª ed. Porto Alegre: Lugano,
2004, 357 p.
|