Veganismo
Perguntas
mais freqüentes, Parte 1
© Gary
L. Francione
Texto
do Blog de
Gary L. Francione
Tradução:
Cláudio
Godoy
Em
meu ensaio de 13
de dezembro de 2006, respondi à pergunta
formulada com freqüência sobre se
as plantas deveriam ou não ser consideradas
como titulares de direitos. Recebi vários
e-mails de leitores dizendo que este ensaio fora
bastante útil na sua tarefa de educar
as outras pessoas sobre os direitos dos animais
e o veganismo e pedindo para que eu respondesse
a mais perguntas que costumam se fazer com freqüência
aos defensores dos direitos dos animais. Neste
ensaio, respondo a três perguntas e espero
que as suas respostas sejam úteis em sua
defesa dos direitos dos animais. Na próxima
semana, responderei a mais três perguntas.
1. Pergunta: Animais
domésticos, como vacas e porcos, e ratos
de laboratório não existiriam
se primeiramente não os houvéssemos
trazido à existência para satisfazer
os nossos fins. Por esta razão, não
deveríamos ter a liberdade de tratá-los
como nossos recursos?
Resposta:
Não. O fato de que em certo sentido somos
responsáveis pela existência de
uma criatura não nos dá o direito
de tratá-la como um recurso. Se não
fosse assim, poderíamos tratar os nossos
próprios filhos como recursos. Afinal,
eles não poderiam existir se não
fosse pelas nossas ações, referentes
tanto à decisão de conceber quanto à decisão
de não abortar. E embora nos seja concedido
algum poder de decisão sobre como criá-los,
existem limites. Não podemos tratá-los
do mesmo modo que tratamos os animais não
humanos. Não podemos escravizá-los,
prostituí-los nem vender os seus órgãos.
Não podemos matá-los. Na verdade,
existe uma norma cultural que diz que trazer
uma criança à existência
gera obrigações morais por parte
de seus pais, que têm o dever criá-la
e os impede de explorá-la.
Também
deve se observar que uma das supostas justificativas
para a escravidão humana nos Estados Unidos
era a de que muitos escravos jamais teriam existido
se não fosse pela existência da
instituição da escravidão.
Os primeiros escravos que foram trazidos para
os Estados Unidos foram obrigados a procriar
e os seus filhos eram considerados como propriedade.
Apesar deste argumento parecer ridículo
para nós nos dias de hoje, ele nos demonstra
que não podemos partir do pressuposto
da legitimidade da instituição
da propriedade tanto de humanos quanto de não
humanos, para depois nos perguntarmos se é legítimo
tratar uma propriedade como uma propriedade,
pois a resposta já estará predeterminada.
Ao invés disso, deveríamos primeiro
questionar se a instituição da
propriedade de animais não humanos (ou
humanos) poderia ou não ser moralmente
justificada.
E
conforme argumentei em minha apresentação
sobre Os
Animais como Propriedade no meu portal,
a instituição da propriedade de
animais não humanos é tão
indefensável quanto a instituição
da propriedade humana.
2. Pergunta:
Os direitos foram concebidos por humanos. Como
eles poderiam ser aplicáveis aos animais
não humanos?
Resposta:
Do mesmo modo que o status moral de um humano
ou de um animal não humano não
pode ser determinado por aquele que foi responsável
pela sua existência, a aplicação
de um conceito moral não pode ser determinada
por quem o concebeu. Se os conceitos morais beneficiassem
apenas aqueles que os tivessem concebido, a maioria
da humanidade ainda se encontraria excluída da
comunidade moral.
O
conceito de direito, pelo menos do modo pelo
qual atualmente o entendemos, na verdade foi
concebido como um modo de se proteger os interesses
de proprietários de terras brancos, ricos
e do sexo masculino. De fato, a maioria dos conceitos
morais foi historicamente concebida por homens
privilegiados para beneficiar outros homens privilegiados.
Com o passar do tempo, acabamos por reconhecer
que o princípio da igualdade de consideração
exigia que tratássemos casos semelhantes
de um modo semelhante e subseqüentemente
acabamos por estender estes direitos (e outros
benefícios morais) a outros seres humanos.
De um modo mais específico, o princípio
da igualdade de consideração exigia
que passássemos a considerar moralmente
odiosa a propriedade de alguns seres humanos
por outros seres humanos. Ao aplicarmos o princípio
da igualdade de consideração aos
animais não humanos, devemos estender
a eles o direito de não serem tratados
como um recurso. Esta questão é tratada
de um modo mais aprofundado em meu portal na
apresentação sobre A
Teoria dos Direitos dos Animais.
É irrelevante
se os animais conceberam ou deixaram de conceber
o conceito de direito ou se são capazes
de até mesmo compreendê-lo. Não
exigimos que os seres humanos sejam potencialmente
capazes de conceber o direito ou de compreender
o seu significado para que eles possam ser seus
beneficiários. Por exemplo, um ser humano
profundamente retardado pode não compreender
o significado do que é um direito, mas
isso não significa que não devemos
conceder a ele a proteção de no
mínimo possuir o direito básico
de não ser tratado como um recurso alheio.
3. Pergunta:
Se você é a favor da abolição
do uso de animais não humanos como recursos
pelos seres humanos, você não
estará dando mais importância
a eles do que aos seres humanos cujas doenças
poderiam ser possivelmente curadas por meio
dos testes com animais não humanos?
3.Resposta:
Não. Do ponto de vista lógico e
moral, esta pergunta é idêntica
a que questionava se os defensores da abolição
da escravidão humana se preocupavam menos
com o bem estar dos brancos sulistas, que ficariam
arruinados economicamente se a escravidão
fosse abolida, do que com o dos os escravos.
O importante aqui não é se valorizamos
menos ou mais fulano ou sicrano, mas sim se é moralmente
justificável tratar criaturas sencientes,
humanas ou não humanas, como mercadorias
ou exclusivamente como meios para satisfazer
as finalidades alheias.
Por
exemplo, normalmente não achamos que podemos
usar qualquer ser humano em experimentos biomédicos
sem o seu consentimento, mesmo sabendo que obteríamos
dados muito melhores sobre as doenças
humanas se utilizássemos humanos ao invés
de animais não humanos nestes experimentos.
A aplicação dos dados obtidos em
experimentos em não humanos em um contexto
humano, partindo-se do pressuposto que estes
dados tenham no mínimo qualquer utilidade,
muitas vezes exige extrapolações
difíceis de se fazer e que são
sempre imprecisas. Poderíamos evitar estas
dificuldades usando humanos nestes experimentos,
o que eliminaria a necessidade de extrapolação.
Mas não fazemos isso porque, embora possamos
discordar sobre muitas questões morais,
a maioria de nós concorda que o uso de
seres humanos sem o seu consentimento em experimentos
estaria descartado logo de cara. Nem por isso
alguém poderia sugerir que nós
nos preocupamos mais com aqueles que poderiam
ser usados sem o seu consentimento nestes experimentos
do que com aqueles que seriam beneficiados por
estes experimentos.
Fonte:
Gary L. Francione, Introduction
to Animal Rights: Your Child or the Dog? (Introdução
aos Direitos dos Animais: Seu Filho ou o Cachorro?),
(Philadelphia:
Temple University Press, 2000).
Gary
L. Francione
© 2007
Gary L. Francione
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