
 |
Entrevistas
|
 |
Comportamento
|
 |
Culinária
|
 |
Ecologia
|
 |
Olhar Verde
|
 |
Nutrição |
|
Por que ainda somos
(ou gostamos
do) assim ou assado
Penso que costumamos ver apenas com os
olhos do presente. Desconhecemos e ou não exercitamos a “dupla-vista”,
o que caracterizo aqui como uma espécie de síntese
perceptiva, formulada a partir da integração
dos óculos do passado com as lentes do futuro. Não
costumamos investigar, tão pouco visionar e desse modo
estacionamos na superficialidade dos entendimentos e dos sentimentos.
Numa conjuntura como esta, a intolerância reina e a flexibilidade
e a evolução são apenas meras utopias.
Três castanhas-do-pará por dia, um cálice
de vinho tinto junto às principais refeições,
leitura diária do horóscopo, terapias hormonais,
exercícios físicos específicos, consumir
produtos de origem animal ou não aspirá-los.
Crenças, preferências, hábitos, comportamentos,
consensos e discordâncias. Fato, também é que,
para tudo há um tempo. O nosso tempo, o tempo de cada
um. O tempo do contexto. O contexto vivido por cada qual. Mudamos
quando estamos prontos para mudar. Por convicção,
não por imposição. Realizamos a partir
do que nos identificamos e aceitamos acreditar. Se não
for assim, não é verdadeiramente coerente não é suficiente,
não nos deixa, de fato, contentes e com a nossa essência,
condizente.
Em particular, tomemos como objeto de
análise e exemplificação
a filosofia vegetariana ou, numa apreensão ainda mais
profunda, a filosofia vegan – o não consumo de
qualquer substância de origem animal, não apenas
no que tange a alimentação, mas entendendo-se
ao vestuário, medicamentos, cosméticos, etc.
Sou, naturalmente, praticante destes saberes e vejo, ouço
e sinto a diversidade de critérios adotados no seu exercício.
Muitos esquecem de exercitar a maleabilidade para com os que
não compartilham destas visões de mundo. Muitos
veganos/vegetarianos ao criticarem os onívoros se esquecem
que este tipo de alimentação fez e ainda faz
parte do universo humano, não por acaso.
Hoje, por certo, há inúmeros dados científicos,
a se somar às diversas tradições filosóficas
e religiosas, apontando para o mito que verdadeiramente é a
crença na necessidade da alimentação com
produtos de origem animal. Particularmente creio ser uma estagnação
evolutiva a matança dos animais para o usufruto de sua
carne, pele e demais partes e sub-partes anátomo-fisiológicas;
seja para uso direto ou indireto. Abomino e não consigo
mais participar de e compactuar com quaisquer meios e instrumentos
que levem à exploração e ou morte dos
animais.
Porém, há muitos instrumentos, meios e formas
de estar no mundo. Únicos por natureza (e por esforço
próprio), selecionamos e efetuamos na medida da nossa
percepção, da nossa visão de mundo. Nos
assemelhamos, por conseqüência nos inserimos em
grupos e, ainda assim, continuamos e ser heterogêneos.
Existem inúmeras “receitas” que mesmo não
intencionando prover fórmula para o bem estar, fornecem
paradigmas do viver; na relação, na intenção,
na visão e inclusive nos termos da alimentação.
Inevitavelmente vivemos como acreditamos e somos piamente o
que podemos (e comemos, claro).
Apenas se ignorar a história ontonegética de
cada indivíduo e a história filogenética
da humanidade atribuirei ao humano o título de bárbaro,
pelo consumo de produtos de origem animal. A matança
de animais é um resquício de tempos primitivos,
por certo. Mas há explicações históricas
para tal. Inúmeras crenças e processos se acomodam
como pilares sob esta natureza de cultura e desse modo, por
mais doloroso que seja presenciar e conviver com tais idéias
e comportamentos, que imprimem tamanho sofrimento para os animais, é preciso
exercitar a flexibilidade, a tolerância e a paciência.
Com isso não opto e “prego” a conformidade.
Mas sim o entendimento e a não violência, de sentimento,
pensamento e ação, como devolução.
Ações precisam ser contextualizadas, opções
necessitam estar justificadas e escolhas apontam para quem
acreditamos ser, querer e estar. As causas são humanas
e as conseqüências, em última instância,
são naturais. As conquistas idem. A diversidade impera
e a opção, infelizmente, ainda não é apenas
uma: procurar respeitar o outro (de que reino natural for).
Pensemos que neste conjunto de valores
que os que estão
onívoros gozam, sangrar um animal ou “torturá-lo” é (ainda)
tão comum e necessário como a vontade de matar
a sede ou comer um biscoito. Pode ser duro para alguns ler
isso, mas é fato. Assim sendo não hostilizemos,
tão pouco nutramos raiva ou indiferença por quem
mata ou maltrata alguém; seja que animal for (incluindo
nós). Procuremos sim, quando possível, efetivamente
impedir, sem violência, através de alguma ação
direta ou indireta. Na nossa humildade e pretensa grandiosa
significância, “perdoemo-los”.
Nesta linha perceptiva de existência, poderemos causar
sofrimento; a nós mesmos e aos que estão à nossa
volta. Todavia há alguma outra possibilidade de exercitar
a liberdade provida pelo arbítrio livre? Creio que não.
E se houver, me perdoem a minha “fórmula”. É apenas
mais uma entre tantos vieses de apreensão da nossa,
por vezes, provisória real realidade.
Paullo Phirmo
|