Por que ainda somos (ou gostamos do) assim ou assado Imprimir E-mail
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27-Jul-2006
 
animalrights.jpgPenso que costumamos ver apenas com os olhos do presente. Desconhecemos e ou não exercitamos a “dupla-vista”, o que caracterizo aqui como uma espécie de síntese perceptiva, formulada a partir da integração dos óculos do passado com as lentes do futuro. Não costumamos investigar, tão pouco visionar e desse modo estacionamos na superficialidade dos entendimentos e dos sentimentos. Numa conjuntura como esta, a intolerância reina e a flexibilidade e a evolução são apenas meras utopias.

Três castanhas-do-pará por dia, um cálice de vinho tinto junto às principais refeições, leitura diária do horóscopo, terapias hormonais, exercícios físicos específicos, consumir produtos de origem animal ou não aspirá-los. Crenças, preferências, hábitos, comportamentos, consensos e discordâncias. Fato, também é que, para tudo há um tempo. O nosso tempo, o tempo de cada um. O tempo do contexto. O contexto vivido por cada qual. Mudamos quando estamos prontos para mudar. Por convicção, não por imposição. Realizamos a partir do que nos identificamos e aceitamos acreditar. Se não for assim, não é verdadeiramente coerente não é suficiente, não nos deixa, de fato, contentes e com a nossa essência, condizente.

Em particular, tomemos como objeto de análise e exemplificação a filosofia vegetariana ou, numa apreensão ainda mais profunda, a filosofia vegan – o não consumo de qualquer substância de origem animal, não apenas no que tange a alimentação, mas entendendo-se ao vestuário, medicamentos, cosméticos, etc. Sou, naturalmente, praticante destes saberes e vejo, ouço e sinto a diversidade de critérios adotados no seu exercício. Muitos esquecem de exercitar a maleabilidade para com os que não compartilham destas visões de mundo. Muitos veganos/vegetarianos ao criticarem os onívoros se esquecem que este tipo de alimentação fez e ainda faz parte do universo humano, não por acaso.

Hoje, por certo, há inúmeros dados científicos, a se somar às diversas tradições filosóficas e religiosas, apontando para o mito que verdadeiramente é a crença na necessidade da alimentação com produtos de origem animal. Particularmente creio ser uma estagnação evolutiva a matança dos animais para o usufruto de sua carne, pele e demais partes e sub-partes anátomo-fisiológicas; seja para uso direto ou indireto. Abomino e não consigo mais participar de e compactuar com quaisquer meios e instrumentos que levem à exploração e ou morte dos animais.

 



 



Porém, há muitos instrumentos, meios e formas de estar no mundo. Únicos por natureza (e por esforço próprio), selecionamos e efetuamos na medida da nossa percepção, da nossa visão de mundo. Nos assemelhamos, por conseqüência nos inserimos em grupos e, ainda assim, continuamos e ser heterogêneos. Existem inúmeras “receitas” que mesmo não intencionando prover fórmula para o bem estar, fornecem paradigmas do viver; na relação, na intenção, na visão e inclusive nos termos da alimentação. Inevitavelmente vivemos como acreditamos e somos piamente o que podemos (e comemos, claro).

Apenas se ignorar a história ontonegética de cada indivíduo e a história filogenética da humanidade atribuirei ao humano o título de bárbaro, pelo consumo de produtos de origem animal. A matança de animais é um resquício de tempos primitivos, por certo. Mas há explicações históricas para tal. Inúmeras crenças e processos se acomodam como pilares sob esta natureza de cultura e desse modo, por mais doloroso que seja presenciar e conviver com tais idéias e comportamentos, que imprimem tamanho sofrimento para os animais, é preciso exercitar a flexibilidade, a tolerância e a paciência. Com isso não opto e “prego” a conformidade. Mas sim o entendimento e a não violência, de sentimento, pensamento e ação, como devolução.

Ações precisam ser contextualizadas, opções necessitam estar justificadas e escolhas apontam para quem acreditamos ser, querer e estar. As causas são humanas e as conseqüências, em última instância, são naturais. As conquistas idem. A diversidade impera e a opção, infelizmente, ainda não é apenas uma: procurar respeitar o outro (de que reino natural for).

Pensemos que neste conjunto de valores que os que estão onívoros gozam, sangrar um animal ou “torturá-lo” é (ainda) tão comum e necessário como a vontade de matar a sede ou comer um biscoito. Pode ser duro para alguns ler isso, mas é fato. Assim sendo não hostilizemos, tão pouco nutramos raiva ou indiferença por quem mata ou maltrata alguém; seja que animal for (incluindo nós). Procuremos sim, quando possível, efetivamente impedir, sem violência, através de alguma ação direta ou indireta. Na nossa humildade e pretensa grandiosa significância, “perdoemo-los”.

Nesta linha perceptiva de existência, poderemos causar sofrimento; a nós mesmos e aos que estão à nossa volta. Todavia há alguma outra possibilidade de exercitar a liberdade provida pelo arbítrio livre? Creio que não. E se houver, me perdoem a minha “fórmula”. É apenas mais uma entre tantos vieses de apreensão da nossa, por vezes, provisória real realidade.

Paullo Phirmo

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