| Reflexões |
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| 07-Jan-2008 | |
| Atualizado em ( 07-Jan-2008 ) |
Reflexões
sobre os movimentos “ambientalistas”, de “libertação
animal” e “veganos”1 sob a ótica do
conceito de “natureza” em tempos de Capitalismo.
Autor: Dennis Zagha Bluwol, Geógrafo
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Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto?
Porque fazem parte da mesma comunidade a que pertenço,
da mesma forma que meus próprios semelhantes.
Émile Zola
Introdução
O objetivo deste texto é refletir sobre como a postura
e os objetivos dos movimentos ambientalistas e vegetarianos
/ veganos devem ser alterados pelo aprofundamento de discussões
teóricas que deveriam estar no centro de suas preocupações.
Para isto, discutirei qual o conceito de “natureza” vigente
em nossa sociedade, como esses movimentos o estão
reproduzindo, e porque isto deve ser mudado para que se possa
perceber quais são, de fato, os alvos que devem ser
atingidos nestas importantes lutas.
O Conceito de Natureza como forma de compreender a realidade
Poucas vezes se vê em nossa sociedade o pensamento
de que muito do que não caminha do melhor modo possível
para a maioria das pessoas pode advir de questões
de cunho conceitual, de discussões teóricas
que, em sua dimensão prática, ajudam a moldar
o mundo como é.
Um exemplo de grande importância é o que nossa
atual sociedade reconhece como natureza. Vejamos então
algumas questões para se iniciar a reflexão
sobre este tema.
Cada pessoa, dependendo de como vive, possui com a terra,
e, portanto, com a Terra, certo tipo de relação
e identificação, como nos mostra Carvalho: “Por
exemplo, se para um empresário de mineração
natureza é fonte de matérias-primas de onde
extrai a mercadoria com a qual obterá lucros, já para
o camponês, natureza é meio de sobrevivência,
ou, de outro lado, se para o especulador de terras natureza é investimento
imobiliário, já para os índios é um
espaço de vida que não se vende nem se compra.”.
Vemos então que o que chamamos de “natureza” é algo
socialmente, historicamente e geograficamente constituído.
Assim, existe uma visão do que seja natureza que se
tornou a mais usada nas sociedades ocidentais atuais: a de
que “natureza” é algo externo ao homem.
Um grande passo na direção de uma mudança
nas relações sociais (e, portanto, ambientais)
existentes é a percepção de que o homem é também
natureza, assim como o que ele produz. A natureza não
pode ser entendida simplesmente como o lugar onde os homens
moram e tiram as coisas para seu sustento, visão esta
muito disseminada como senso-comum, e que é um motivo
central no avanço das degradações ambientais
postas.
Humanidade e natureza são na verdade uma coisa só.
Podemos compreender então que quando um homem explora
outro homem, está explorando uma parte da natureza.
Provavelmente, estará também explorando o resto
dela, ou seja, tudo é explorado. Hoje isso se dá em
nome da acumulação capitalista, como veremos
em breve.
Portanto, essa compartimentação da natureza,
não só entre homem-natureza, mas entre todos
os seus elementos, que são vistos separadamente, como
matérias-primas cuja finalidade é servir à produção
de bens, é algo desenvolvido através da história
e das visões de mundo de cada sociedade. Gonçalves
nos mostra que “Toda sociedade, toda cultura cria,
inventa, institui uma determinada idéia do que seja
natureza.”.
Sobre isso, Carvalho diz: “a natureza sequer teria
sido reconhecida enquanto alteridade...distinta da dos homens,
se as relações sociais não tivessem
conduzido historicamente a esta separação entre
o “mundo natural” e o “mundo social”.
A visão de que o resto da natureza é inferior
aos humanos e que é nosso direito (e mesmo nosso dever,
em alguns casos) usá-la como quisermos pode ser facilmente
e constantemente encontrada em tradições muito
presentes até os dias atuais, como a tradição
grega, principalmente de linha aristotélica e a tradição
judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento.
Essas duas tradições acabaram se misturando
e seus ecos se fazem fortemente presente em todas as sociedades
ocidentais. Porém, a visão compartimentada
de mundo, como colocada acima, foi claramente posta como
corrente de pensamento a partir de Descartes e seus seguidores,
justificando assim, uma certa visão de mundo que viria
a ser dominante em praticamente todo o planeta, principalmente
no ocidente, sendo seguida ainda hoje, por muitos, como a
visão verdadeira de mundo.
Em seu livro Discurso Sobre
o Método, Descartes chega a dizer que aprendendo sobre
a natureza e sua força “...poderíamos
empregá-los da mesma maneira em todos os usos para
os quais são próprios e assim nos tornar como
que senhores e possuidores da natureza”.
A filosofia cartesiana enquanto modo de se compreender o
mundo baseado em uma visão mecanicista da natureza
foi altamente adequada, tempos depois, para o crescimento
da burguesia mercantil, quando tendo sido a natureza dessacralizada,
ou seja, tendo sido tirada a visão sagrada de mundo
colocada pela Igreja Católica na Idade Média,
foi possível passar a explorar a natureza de um modo
muito mais agressivo, sem culpas ou preocupações
de cunho metafísico, pois uma moralidade baseada no
temor a um deus que poderia se enervar com certos tipos de
agressão à sua criação não
mais era um grande problema, ao menos para a emergente burguesia.
Podia-se, então, compartimentar a natureza, esquartejá-la,
pois era algo morto, não mais habitado por deuses.
O século XIX reforçou a visão cartesiana
de mundo, pois foi o momento do nascimento das disciplinas
científicas como conhecemos hoje. Com a idéia
de que “natural” e “social” são
instâncias diametralmente diferentes da realidade,
são criadas as ciências ditas naturais e as
ciências ditas sociais, que aparentemente, assim como
postas para a sociedade pelos acadêmicos devotos desta
falsa divisão, são ciências que atuam
em campos totalmente diferentes, e deste modo, a idéia
de natureza como algo compartimentado e separado da humanidade
foi altamente reforçada. Assim, disseminado como senso-comum,
o conceito parece algo estático, indiscutível.
A simples idéia de que o que “todos” chamam
de “natureza” pode ser outra coisa que não
aquela que “todos” chamam aparentemente desde
sempre, parece ridícula e sem interesse para muitos.
Muito se diz hoje, principalmente por movimentos ambientalistas,
que o homem está destruindo a natureza.
Porém,
não se diz qual homem está destruindo a natureza,
nem o que se está chamando de natureza. Com certeza
não é o índio nem o camponês clássico
(não ligado ao sistema capitalista) que estão
destruindo a terra onde vivem e retiram o que é necessário
para suas sobrevivências. Quem destrói o seu
meio ambiente é um certo homem sob uma certa cultura,
que gera um certo conceito de natureza, que na prática é a
própria relação do homem com o resto
da natureza. No mundo ocidental moderno essa relação
pode ser entendida como o próprio modo de produção
capitalista.
Este modo de produção tende a separar cada
vez mais o homem dos locais onde se poderia retirar os elementos
básicos para sua sobrevivência, principalmente
no que se refere à sua alimentação.
Deste modo, estes homens não terão outra escolha
a não ser estarem subordinados ao capital, pois não
tendo como retirar diretamente da terra o necessário
para o seu sustento, faz-se necessário comprar os
alimentos, roupas e tudo mais o que for necessário
no mercado. Para se comprar necessita-se de dinheiro. Para
se ter dinheiro necessita-se de emprego. Com gente necessitando
de emprego para comer, o burguês pode explorá-los.
Com gente sendo explorada, produzem-se mercadorias que são
postas no mercado para que essas mesmas pessoas, impossibilitadas
de ter acesso direto a estes produtos, possam obtê-los
através de sua compra. Com isso gera-se um ciclo de
acumulação de capital.
Portanto, a questão central nas discussões sobre
impactos causados ao meio-ambiente não pode ficar simplesmente
no consagrado “o homem é mal e destrói
a natureza”. Há de se aprofundar esta discussão.
O fato é que o modo de produção a nós
imposto, o chamado Capitalismo, necessita imprescindivelmente,
para seu funcionamento, da exploração da natureza,
sendo natureza não só árvores, animais
não humanos, solos, águas, etc., mas também
os homens e suas sociedades. Tudo é explorado em nome
da produção de mais-valia como meio de acumular
capital.
Sobre os Movimentos de Proteção do Meio-Ambiente
Hoje, com tantos movimentos ambientalistas
ativos, ainda continuamos com os problemas ambientais se
agravando cada vez mais. Isso se dá, logicamente, pela força das empresas,
porém também pelo caráter destes movimentos,
pois a maioria não tem uma visão mais centrada
sobre o funcionamento do mundo moderno, ou seja, uma reflexão
conceitual que permita compreender a realidade em suas relações
mais profundas, no que podemos considerar por essência
da realidade, num nível de análise diferente
da aparência mais superficial.
Tais movimentos, se pretendem realmente uma transformação
no modo como a humanidade se porta em relação
ao resto da natureza, necessitam primeiramente acabar com esta
divisão homem-natureza, que, como vimos, é uma
falsa visão que serve como meio de alienar o ser humano
do que necessita para sua sobrevivência, além
de ser uma alienação de cunho ideológico
que não permite que se perceba com facilidade o modo
como a exploração da natureza ocorre com a finalidade
de servir àqueles cujo interesse é o acumulo
de capital.
Além disso, cabe aos movimentos ambientalistas sempre
lembrar que quando se briga por algo específico não
se deve esquecer o todo que gerou este problema. Por exemplo,
quando se briga pelo massacre de algum animal, não se
deve esquecer que quem o está matando pode estar fazendo
isto por um salário, pela sua necessidade de dinheiro
para sobreviver, portanto há alguém o explorando
e há todo um sistema de exploração montado
que explora a natureza com um todo, seja um animal como uma
baleia ou uma tartaruga, seja o trabalhador que é obrigado
a matar estes animais para ter sua remuneração
que trocará por comida, roupas e outras necessidades
básicas. Não estou querendo justificar a caça
a estes animais, fato que repudio e que creio que se deva sempre
lutar contra, porém, estou mostrando que a briga é muito
mais ampla. Brigar contra os navios baleeiros é válido
desde que se brigue também contra todo o modo de produção
que gera a caça de animais em nome da acumulação
de capital sem se preocupar com os danos causados ao meio ambiente
ou à vida destes seres sensíveis: o modo de produção
capitalista.
Neste momento cabe fazer uma pequena ressalva: é lógico
que em modos de produção não capitalistas
também pode haver massacre de animais e destruição
ambiental, mas o que tento mostrar é que enquanto houver
Capitalismo, cujo objetivo é o acúmulo de capital
baseado na exploração da natureza (inclui-se
aí o ser humano enquanto força de trabalho),
não será possível uma real transformação
no modo como a humanidade se relaciona com o resto da natureza.
O Capitalismo não irá deixar de explorá-la,
pois a exploração é a espinha dorsal do
Capitalismo.
Grande parte dos movimentos ecológicos atuais não é contra
o modo capitalista de produção, e muitos são
até parceiros, tendo apoio da chamada iniciativa privada,
ou seja, as empresas capitalistas. Isso se dá pois a
principal luta deles é a conservação dos
recursos que o homem destrói e que servem de matéria-prima
para estas indústrias. Natureza para estes movimentos
e indústrias é apenas uma fornecedora de matéria-prima
e, portanto, deve-se conservá-la. Com isso, cria-se
algo meio obscuro, pois no discurso destes movimentos (geralmente
na forma de ONGs) a natureza é destruída por
um homem despersonalizado e abstrato. Não se percebe
(ou ao menos não se revela) que o que existe são
homens concretos que são também explorados pelo
mesmo interesse que se explora o meio ambiente. Esses movimentos
acabam por apoiar o modo de produção capitalista
(por isto são apoiados por ele), pois fazem com que
seja conservada a matéria-prima para as indústrias
e ao mesmo tempo são escondidas as relações
cruéis contra os próprios homens, não
se protestando contra o modo de produção como
um todo. Esses movimentos podem ser chamados de “Capitalismo
verde”, e são, infelizmente, a esmagadora maioria
dos movimentos ditos “ambientalistas” ou “ecológicos” que
possuem acesso ao grande público, principalmente no
que diz respeito à veiculação de suas
idéias nas grandes mídias, com o apoio financeiro
da iniciativa privada ou do próprio governo estatal
que, logicamente, também possui seus interesses capitalistas
na exploração de seu território e de seus
habitantes.
Sobre a “Libertação Animal” e o Veganismo
Colocadas estas primeiras reflexões, posso prosseguir
no sentido da discussão das questões sobre
o modo como os animais são encarados em nosso mundo.
Algumas reflexões muito bem feitas já foram
realizadas sobre este tema, destacando-se a essencial obra
de Peter Singer “Libertação Animal”.
Como reflexão no campo da ética este livro
nos apresenta argumentos suficientes para se ir contra qualquer
tipo de exploração contra animais, dada a sensibilidade
(capacidade de sofrer) destes seres, dados os impactos ao
meio-ambiente resultantes da indústria da carne, aos
fatores ligados à questão da fome no mundo,
entre outros pontos de análise. O objetivo aqui não é repetir
o que já foi escrito neste ou em outros vários
textos importantíssimos, mas colocar algumas das discussões
do que hoje é conhecido como movimento de libertação
animal dentro da proposta deste artigo, numa tentativa de
aprofundar a discussão em certos sentidos e apontar
para possíveis resoluções para estas
problemáticas.
Novamente coloco a questão do conceito de natureza
para abordar esta questão. Animais são parte
na natureza. Todos os animais. Por exemplo, o ser humano
e as relações que possui com o resto do mundo.
O fato de existir conflitos entre os animais nos mostra que
um conceito de natureza que a vê como algo bucólico,
paradisíaco e distante é algo irreal. A grande
questão não é apontar ou propagar uma
idéia fictícia de que natureza é sinônimo
de paz total. O conflito é parte da natureza. Não
existe mundo sem conflito. A questão, portanto, é que
animais não humanos podem ter conflitos entre si,
mas só o animal humano é capaz de explorar
premeditadamente, intensivamente e imoralmente outros animais,
o que faz com que essa exploração seja muito
pior do que a feita por parasitas de outras espécies
sem capacidade de discernimento, abstração
e reflexão.
Em linhas gerais, a relação que o ser humano
atual possui com outras espécies animais pode ser
definida em uma palavra: especismo. Ou seja, há um
preconceito colocado em nossa sociedade que diz que outras
espécies animais são menos dignas de respeito
e bons tratos do que nossa espécie. É o mesmo
discurso do racismo, do sexismo, ou de outros preconceitos
de caráter excludente de uma parte dos seres por razões
não explicáveis ou não defensáveis
moralmente.
Assim, animais não humanos podem ser engaiolados,
enjaulados, acorrentados, treinados, debicados, isolados,
paralisados, testados, pendurados...e, principalmente, assassinados.
Mortos por um motivo mesquinho e não mais justificável
no mundo atual: para que seu cadáver seja devorado.
Não é mais possível justificar essa
barbárie, pois hoje sabemos que nutricionalmente o
consumo de carne, leite e ovos não apresenta nenhum
diferencial no que se refere aos nutrientes necessários
ao ser humano em relação ao que se pode obter
através de fontes vegetais, a não ser aspectos
negativos, como o excesso de gorduras. Ambientalmente a indústria
da carne é repulsiva, por usar e poluir uma quantidade
gigantesca de água, por destruir áreas gigantescas
de florestas para a criação de pastos ou de
grãos para a alimentação do gado, ou
por destruir a camada de ozônio através do gás
metano liberado pelos animais concentrados, que chega a ser
30 vezes mais destruidor do que o gás carbônico
liberado por automóveis.
É uma opção alimentar infeliz e injustificável.
Como esta discussão se encaixa no eixo central deste
artigo?
Para que essa repulsiva indústria exista nos moldes
que existe hoje, não podemos enxergar-nos como parte
desta mesma natureza que é presa, torturada e abatida
nas fazendas-fábricas e seus matadouros. Não
podemos nos sentir parte desta situação assustadora.
Aí, mais uma vez se encaixa a proposta do conceito
do que é a natureza posto para nós como uma
verdade indiscutível, como analisado no início
deste artigo. O ser humano não se vê como um
animal, pois se considera os animais como aqueles seres inferiores
e sem consciência que estão aqui para nos servir.
Até bem pouco tempo atrás se mudássemos
a palavra “animais” por “negros” na última
sentença, ela seria lida com a maior tranqüilidade,
sem causar espanto em boa parte da população
não negra.
Novamente voltamos à questão: toda a natureza é explorada
do modo como é hoje por um certo objetivo: a acumulação
de capital, que é o objetivo do capitalismo.
O que é uma vaca para um burguês? É uma
máquina onde se coloca grãos e cereais baratos
e abundantes (que poderiam alimentar um enorme número
de pessoas a baixos custos) e se retira, ao final do processo
(que é cada vez menor dado ao uso de hormônios
e antibióticos), carne com um valor comercial bem
maior do que o dos grãos e cereais, que será vendida
para uma parcela da população mundial que possui
dinheiro para isto e está disposta a trocá-lo
por este pequeno e injustificável prazer degustativo
momentâneo.
A vaca, a galinha, os porcos, enfim, todos os animais são
apenas matéria-prima para indústrias altamente
lucrativas para seus donos. Donos estes que não se
importam nem o mínimo com o sofrimento destes animais,
com as horríveis condições de vida a
que são submetidos (leia “Libertação
Animal”), com os impactos ambientais calamitosos provocados
por esta indústria, com o número dezenas de
vezes maior de pessoas que poderiam ser muito bem alimentadas
com as fontes vegetais de nutrientes se não as déssemos
para o gado, com a grande área de floresta que seria
poupada do desmatamento para a criação de pastos
e grãos, com a imensa quantidade de água que é desperdiçada
ou poluída com dejetos do gado, etc.
Aliás, é bom colocar que é claro que
a problemática da fome no mundo pode ser observada
sob o prisma da concentração de renda e da
concentração fundiária existente em
vários locais do mundo, inclusive, de forma violenta,
no Brasil. É impossível desconsiderar isto.
Porém, é bom ressaltar que a questão
não é só esta. Suponha que um dia estas
concentrações terminem e todos possam ter acesso
ao que quiserem, pelo menos para se alimentar, a mais básica
das necessidades. Se todos, considerando a população
mundial atual que cresce vertiginosamente, desejarem pratos à base
de carne, leite e ovos, de acordo com pesquisas recentes,
precisaríamos de pelo menos quatro planetas como a
Terra para criar todos esses animais. E este número
varia para mais, se considerarmos outros luxos de classes
mais abastadas e consumidoras de produtos industrializados
em excesso. Ou seja, mesmo que se quisesse, seria impossível
alimentar toda a população do mundo com carne,
ovos ou leite. Não há condições
pelos próprios limites do planeta. Portanto, é totalmente
contraditório se defender uma posição
contra o modo de produção exploratório
hoje existente e continuar incentivando o consumo de animais.
Não é possível existir uma sociedade
mais justa e igualitária no mundo se não se
mudar o mais essencial dos atos, que deveria ser praticado
por todos algumas vezes ao dia: se alimentar.
Temos então o Capitalismo, com seu conceito alienante
de natureza, explorando a tudo e a todos em nome da acumulação
de capital. A exploração de animais não
humanos é um destes tipos de exploração.
Como qualquer tipo de exploração, principalmente
de seres sensíveis, é injustificável
e imoral, assim como a exploração do ser humano
transformado em força de trabalho nas mãos
destes mesmos carrascos.
Libertar os animais desta terrível situação
só pode ocorrer simultaneamente à libertação
do homem desta mesma situação exploratória,
assim como a libertação de todo o planeta.
Uma das mudanças essenciais para se chegar a isto é alterarmos
o que consideramos ser nossa natureza e nos vermos novamente
integrados ao resto do mundo, agindo em prol do bem comum
e da melhoria da qualidade de vida de todos.
A burguesia, com o auxílio de uma de suas mais execráveis
armas, o marketing, embute nas pessoas cada vez mais necessidades
superficiais que se tornam centrais na vida de um número
altíssimo de pessoas, mesmo naqueles que não
podem pagar por elas, mas que não por isso não
possuirão o desejo de um dia possuir algo daquilo
que o protagonista acéfalo da novela adquiriu, ou
do que o comercial que associa mulheres semi-nuas e juventude
desmiolada ao sucesso e bem estar nada sutilmente lhe ordena
comprar. Tais necessidades fazem a produção
de mercadorias crescer vertiginosamente e continuamente,
a acumulação de capital ser cada vez maior
e, portanto, a exploração da natureza alcançar
patamares cada vez mais insustentáveis: mais exploração
de matéria-prima, de trabalhadores ou de animais usados
como ingredientes ou como cobaias em inúmeros e sofridos
testes em seus organismos a cada novo ingrediente ou fórmula
desenvolvida. Cada novo produto lançado é uma
nova facada contra nós mesmos. É um atentado
contra a natureza.
Ai das indústrias se as pessoas tivessem o discernimento
de que elas são também natureza e de que não
podem ser vistas como matéria-prima. Sim, as pessoas
são vistas no mesmo nível de importância
que um pedaço de bauxita pelos burgueses. Apenas têm
nomes diferentes no processo exploratório: um é matéria-prima,
o outro é força-de-trabalho. A única
diferença é que este último precisa
comer, e portanto precisa de seu ínfimo salário,
não que isso seja um grande problema, já que
o salário é uma pequenina parte valor do que
essa força-de-trabalho cria com aquela matéria-prima.
O resto é lucro. E se há lucro, é com
a natureza que o burguês vai se preocupar? Que se explore
mineral, vegetal, animal não humano ou animal humano. É assim
que o modo de produção que estamos inclusos
opera.
Se quisermos caminhar na direção de um movimento
de “libertação animal” que possua
alguma chance de sucesso, não podemos deixar estas
questões de lado. Libertar os animais de sua condição
de vida atual sem pensar em libertar também os humanos
e todo o resto da natureza das reais forças por trás
das explorações, é um trabalho fadado
ao fracasso. Não podemos querer um capitalismo vegano,
como parece ser o caso em muitos discursos. Capitalismo e
veganismo, como tentei mostrar durante este texto, ainda
que com outras palavras, são práticas contraditórias.
Não podemos deixar que o capitalismo se aproprie do
vegetarianismo como se este fosse apenas um nicho de mercado.
Não somos um nicho de mercado. Devemos ser uma opção
real de luta contra qualquer exploração, no
caminho de um futuro mais justo, igualitário e, para
todos os seres, prazeroso.
Conclusões propositivas
- Devemos repensar o que entendemos por natureza e no que este repensar muda em nossa postura com o mundo.
- Devemos perceber que movimentos pela preservação do meio ambiente, assim como movimentos de defesa dos direitos dos animais e de propagação do vegetarianismo/veganismo não alcançarão resultados totalmente satisfatórios se não conversarem com os chamados movimentos sociais. Sendo a sociedade parte da natureza e sendo toda a natureza explorada pelo modo de produção capitalista, todos estes movimentos devem perceber suas estreitas relações e lutar juntos por um mundo melhor.
- Ações diretas, pontuais e parciais não
podem ser deixadas de lado, mas não podem ser feitas
sem ser parte de um projeto maior e mais profundo (radical).
Para isso, esta conversa entre movimentos diferentes, assim
como o estudo e discussão das bases teóricas
e dos objetivos dos movimentos devem ser estimulados.
Bibliografia
CARVALHO, MARCOS DE: O que é Natureza, São Paulo, Brasiliense, 2 ed, 1999, 85p.
GONÇALVES, CARLOS WALTER PORTO: Os (Des)caminhos do Meio Ambiente, São Paulo, Contexto, 7 ed, 2000, 148p.
LAGO, ANTÔNIO e PÁDUA, JOSÉ AUGUSTO: O que é Ecologia, São Paulo, Brasiliense, 1 ed, 1984, 116p.
SINGER, PETER: Ética Prática, São Paulo, Martins Fontes, 2002, 399p.
______________: Libertação Animal, Porto Alegre, São Paulo, Lugano, 2004, 357p.
1 Veganismo é o termo usado para definir a corrente de pensamento que se recusa a utilizar qualquer produto oriundo da exploração dos animais, seja diretamente, na alimentação ou vestuário, seja indiretamente, como no caso de cosméticos, remédios, produtos de limpeza, entre outros produtos produzidos por empresas que os testam em animais.






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