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Fidelidade e traição entre cães e seres humanos - Página 3

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[continuação]

anubisEgito, Privilégios e Sacrifícios
No Egito, se por um lado os cães tinham privilégios faraônicos, podendo inclusive viver no interior de templos sagrados, por outro eram o principal instrumento de sacrifício. No século 19, britânicos que faziam escavações em cemitérios, tumbas e câmaras subterrâneas encontraram milhares de múmias de cães, gatos, falcões e outros animais remanescentes de sacrifícios.

Relatos apontam que mais de 100 mil corpos desses animais foram encontrados nesse período. Por volta de 1880, toneladas deles, mumificados, foram levados do Egito para a Inglaterra e,
em seguida, pulverizados e usados como fertilizantes em jardins. Assim, o que era sagrado em uma cultura, não foi mais que adubo para outra.

Conforme Thurston, acredita-se que peregrinos que lotavam a cidade de Hardai, em períodos específicos do ano, eram estimulados a pagar para que muitas dessas múmias fossem enterradas, uma forma de expressar devoção ao deus Anúbis. Milhares de cães eram mortos e embalsamados em canis anexos aos templos. Pesquisas arqueológicas utilizando exames com raios X demonstram que essas múmias eram produzidas em massa, às pressas e, muitas vezes, com abate de filhotes, a maioria com menos de um ano de idade. Acredita-se que os filhotes eram preferíveis porque o processo de mumificação era mais rápido e econômico, já que o objetivo principal era a quantidade deles para abastecer a cidade, nos momentos dos festivais religiosos ao deus Anúbis.

A matéria-prima principal para a confecção das múmias era farta e em constante crescimento. Além dos canis, de propriedade dos templos, as ruas das cidades egípcias estavam repletas desses animais sem dono.

Sacrifícios aos Deuses
Essa mesma história do Egito se repetiria na Grécia Clássica e também em Roma. Na Grécia, no entanto, deliberadamente optou-se pelos cães de “classe baixa”, principalmente por serem acessíveis às camadas pobres da população. Assim, animais abandonados tornaram-se populares nos sacrifícios religiosos. Milhares deles eram oferecidos anualmente aos deuses com a intenção de aplacar tanto as violentas tempestades de verão como secas prolongadas que inviabilizam a produção dos campos. Os belicosos espartanos tinham uma particularidade: escolhiam especificamente cães pretos para serem sacrificados ao deus Ares e à deusa Hécate. Do sagrado ao secular, em se tratando da história dos cães, a passagem foi muito rápida.

Fonte: www2.uol.com.br/sciam/reportagens/fidelidade_e_traicao_entre_caes_e_seres_humanos.html

Nelson Aprobato Filho é doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo com a tese O couro e o aço. Sob a mira do moderno: a “aventura” dos animais pelos “jardins” da Pauliceia, final do século XIX / início do XX, defendida em 2007. Autor do livro Kaleidosfone
– As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo, fins do século XIX – início do XX publicado pela Edusp/ Fapesp em 2008, trabalho originalmente defendido como dissertação de mestrado. Atualmente é teaching assistant e program assistant do Department of Romance
Languages and Literatures da Harvard University, EUA.
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