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Fidelidade e traição entre cães e seres humanos - Página 4

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[continuação]

Nesse período, personalidades começaram a se fazer acompanhar de grandes cães. Alexandre, o Grande, tinha cães de caça trazidos da Índia. Segundo Thurston, ele ficou chocado com o que viu envolvendo cães: a luta, em uma arena, entre um cão molosso e um leão. Durante a demonstração, a mando de um nobre indiano, dono do animal, várias partes do cão iam sendo amputadas para comprovar que mesmo assim ele continuava “bravamente” atacando e tentando se defender do rival. No final do “espetáculo” Alexandre recebeu exemplares de presente.

Em Roma a situação não era diferente. Frequentemente cães eram usados para lutar com gladiadores, leões e ursos. Em outras ocasiões, após terem sido mantidos durante dias privados de alimentação, eram empregados como “carrascos” para atacar e devorar prisioneiros. Iniciava-se, também por essa época, o uso dos cães-de-guarda. Foi quando surgiram os primeiros avisos alertando sobre “cave canem”, que, para quem nunca estudou, ou se esqueceu do latim, significa literalmente “cuidado com o cão”. Rapidamente percebeu-se que esses animais, devidamente treinados, trariam grande ajuda na guerra: eram velozes, fortes e, tornados violentos, podiam derrubar um soldado do cavalo e matá-lo em seguida.

Assim como a religião e a tecnologia de guerra, a ciência da Antiguidade também utilizou cães para seus interesses. O médico grego Cláudio Galeno, que viveu entre os anos de 129 e 199 d.C., talvez tenha sido o primeiro a fazer sessões de vivissecção para investigações anatômicas. Em suas aulas se valia de cães, mas apenas os apanhados nas ruas, para demonstrar suas descobertas a seus admirados alunos.

Em contraposição, foi na Antiguidade que também começou a tomar forma o reconhecimento da fidelidade, sensibilidade e bondade do cão para com o homem e vice-versa. Segundo Thurston, greco-romanos foram tocados pela qualidade “humana” da personalidade canina. Isso surgiu porque escritores mais sensíveis observavam que, mesmo tendo suas vidas constantemente ameaçadas, ainda assim os cães procuravam a companhia humana.

Infelizmente, grande parte das relações entre o homem e o cão, na atualidade, não decorre da fidelidade animal e muito menos da memória remanescente de 15 mil anos, iniciada por fêmeas humanas do Paleolítico Superior. A maior parte de nossas atitudes para com os animais em geral, e os cães em particular, tem como fonte experiências mais sombrias que começaram a se desenvolver na Antiguidade. Desse período até agora, em todos os campos de atuação humana, das ciências às tecnologias, das artes às religiões, da vida pública aos recônditos da vida privada, guardadas as proporções e especificidades, temos utilizado como trampolim para novas “descobertas” o que muitos egípcios, gregos e romanosjá faziam com os animais no passado.

Fonte: www2.uol.com.br/sciam/reportagens/fidelidade_e_traicao_entre_caes_e_seres_humanos.html

Nelson Aprobato Filho é doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo com a tese O couro e o aço. Sob a mira do moderno: a “aventura” dos animais pelos “jardins” da Pauliceia, final do século XIX / início do XX, defendida em 2007. Autor do livro Kaleidosfone
– As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo, fins do século XIX – início do XX publicado pela Edusp/ Fapesp em 2008, trabalho originalmente defendido como dissertação de mestrado. Atualmente é teaching assistant e program assistant do Department of Romance
Languages and Literatures da Harvard University, EUA.
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