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Fidelidade e traição entre cães e seres humanos - Página 7

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[continuação]

charge2A partir daí, em nome do sanitarismo, higiene e saúde pública, os cães passariam para outro patamar de vigilância e importância. O Artigo 60, do Código de Posturas de 1886, por exemplo, estipulava que era proibido soltar nas ruas da capital e povoações vizinhas animais hidrófobos ou atacados de outra qualquer moléstia contagiosa. Se veio a proibição, evidentemente é porque essa era uma prática comum. Para tentar freá-la, o infrator pagaria 30 mil réis de multa, soma elevada para o período, e ficaria oito dias na prisão. Os animais que fossem encontrados naquele estado, vagando pela cidade e seus arredores, seriam imediatamente eliminados pela fiscalização. Não se conhecia, ainda, a vacina antirrábica. Na realidade, data exatamen-te de 1886 o período em que o microbiólogo francês Louis Pasteur, finalizava o desenvolvimento desse medicamento.

Nesse contexto, apareceria nova associação depreciativa em torno do cão. A partir das leis de 1893, trocou-se a forma de nomear os cães sem raça, soltos pelas ruas. Esses animais, então, foram taxativamente qualificados de “vagabundos”, uma forma de diferenciá-los dos “cães de raça especial” de propriedade da elite econômica paulistana. Antes de 1893 eram conhecidos como cães “vagantes” que, na acepção ligada ao movimento, tem conotação mais amena e positiva que “vagabundo”. Vagante é o ser que anda sem rumo certo, perambula, vagueia ou movimenta-se de forma descomprometida. “Vagabundo”, homem ou cão, é aquele que leva vida errante, que de forma afrontosa vagabundeia, leva a vida no ócio, é indolente e vadio. Age sem seriedade ou com desonestidade, é malandro e canalha, não tem constância e é volúvel. É de má qualidade, inferior, ordinário e barato, não tem residência habitual. Para os desejos de construção de uma cidade moderna essa diferenciação era fundamental, e portanto, todos os “vagabundos”, humanos ou cães, deveriam ser retirados de cena.

Foi nesse contexto que Antônio da Silva Prado pagou o último fornecimento de bolas envenenadas. Naquele mesmo dia, 21 de março de 1899, outra importante lei foi promulgada no sentido de garantir o fim do “sinistro e deprimente espetáculo” apresentado diariamente nas ruas da “progressista” São Paulo. Segundo a Lei 390, Silva Prado tentaria “organizar o serviço de extinção de cães vagabundos e sem donos, de modo a evitar o sistema até agora em uso, de aplicar veneno aos animais por meio de bolas, em qualquer parte em que são encontrados”. Para isso, esclarecia a legislação, “poderá o Prefeito entrar em acordo, se lhe parecer conveniente, com a União Internacional Protetora dos Animais [Uipa], confiando-lhe uma parte ou todos estes serviços”.

Foi o que fez Antônio Prado. Ciente do problema que tinha nas mãos, e da dificuldade e complexidade para resolvê-lo, aproximou-se dessa entidade. Preocupado com a quantidade de cães nas ruas e das “ameaças” que representavam para a população, conhecedor das atividades desenvolvidas no mundo por entidades de proteção animal, resolveu pedir ajuda da UIPA, responsabilizando-a “pela segurança e alimentação de todos os animais que ali [no Depósito Municipal] derem entrada”. É importante observar que, mesmo com a abolição das bolas envenenadas, continuou-se a usar o termo “vagabundo”. Além disso, o principal mecanismo no controle da população canina continuou a ser o abate sumário e, por mais paradoxal que possa parecer, a entidade incumbida oficialmente dessa prática foi a UIPA.

Fonte: www2.uol.com.br/sciam/reportagens/fidelidade_e_traicao_entre_caes_e_seres_humanos.html

Nelson Aprobato Filho é doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo com a tese O couro e o aço. Sob a mira do moderno: a “aventura” dos animais pelos “jardins” da Pauliceia, final do século XIX / início do XX, defendida em 2007. Autor do livro Kaleidosfone
– As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo, fins do século XIX – início do XX publicado pela Edusp/ Fapesp em 2008, trabalho originalmente defendido como dissertação de mestrado. Atualmente é teaching assistant e program assistant do Department of Romance
Languages and Literatures da Harvard University, EUA.
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