Não devemos enxergar a indústria da carne como inimiga.

Não devemos enxergar a indústria da carne como inimiga. Tampouco devemos enxergar como inimigas outras pessoas que pensam de forma diferente da gente, por mais absurdo que isso pareça pra gente. Mudar essa mentalidade dentro do nosso movimento é urgente se quisermos atuar de forma transformadora fora da nossa bolha. 

Quando novos ativistas surgem, é comum que eles sejam tomados por uma sensação de urgência e que eles acabem colocando pessoas e empresas não veganas na posição de inimigas ou figuras ruins que só causam sofrimento. Ao invés disso, devemos pensar que se nós queremos que pessoas, empresas e governos mudem, é necessário enxergá-los como possíveis aliados e apresentarmos soluções atraentes ao invés de atacá-los. É construindo pontes, ao invés de abismos, que podemos acelerar a mudança da nossa sociedade pelos animais.

Transformando ou destruindo?

Nós podemos acabar sentindo desprezo ao olhar para pessoas, empresas e governos que tomam atitudes que colaboram com práticas que promovem imenso sofrimento a bilhões de animais, mas como ativistas e agentes de mudança, a forma como encaramos esses três pilares é fundamental. Intuitivamente, nossa reação aos pilares que não estão alinhados com os nossos valores é enxergá-los como opostos, e isso acaba sendo uma grande armadilha.
Governos com sistemas corrompidos, empresas que colocam o lucro acima de tudo e sociedades nas quais as pessoas colocam os próprios interesses acima de qualquer senso de responsabilidade coletiva aguçam o nosso sentimento de injustiça e tornam nossas emoções vulneráveis colocando, muitas vezes, a emoção acima da razão. Enxergá-los como opostos é fácil, intuitivo, mas ao mesmo tempo, ineficaz.

Com essa compreensão em mente, se queremos mudar a forma como esses três pilares enxergam e tratam os animais, teoricamente nós teríamos duas alternativas.

A primeira, seria enxergá-los como inimigos. Dessa forma, nós nos afastaríamos de pessoas que ainda não são veganas, nos relacionaríamos apenas com veganos, julgaríamos quem ainda não pensa da forma como pensamos, boicoitaríamos todas as empresas que colaboram com qualquer tipo de exploração animal, atacaríamos essas empresas e agentes do governo, fazendo de tudo para não colaborar com o sistema que, infelizmente, ainda é tão conivente com injustiças e sofrimento. 

A segunda alternativa seria enxergá-los como potenciais aliados. Dessa forma, nós nos aproximaríamos de pessoas que ainda não são veganas e nunca as julgaríamos por suas atitudes. Ao invés disso, buscaríamos inspirá-las através do nosso exemplo e mostrar, de forma natural, os benefícios do nosso estilo de vida. Em relação às empresas, que sim buscam o lucro, nós mostraríamos oportunidades para elas manterem ou até mesmo aumentarem os lucros com produtos e serviços de qualidade que não dependem de exploração animal. Por meio de recursos legislativos, buscaríamos alternativas para proibir práticas da indústria de exploração animal uma a uma e buscaríamos facilitar a entrada de novas opções veganas de forma acessível para todos.

Veja bem, não enxergá-los como inimigos não significa não pressioná-los. Existe uma questão moral urgente que precisa ser endereçada. As fazendas industriais promovem sofrimento a uma escala jamais vista nesse planeta, tanto em relação a quantidade de indivíduos, quanto em intensidade de sofrimento. Pressionar as instituições corporativas e públicas é fundamental para promovermos mudanças significativas, ao passo que a população também vai mudando a forma como enxerga os animais. Nossa mentalidade não exclui abordagens estratégicas, muitas vezes que vêm em forma de muita pressão institucional.

Aprofundando um pouco melhor essa diferença de mentalidade com alguns exemplos:

 


Conversando com o outro lado

Por demasiado tempo, o ativismo vegano tem focado em confrontos, discussões e ataques. Para alguns, o nosso movimento é tratado como uma guerra, na qual restringimos quem está do nosso lado e condenamos e julgamos quem pensa diferente. Essa mentalidade é altamente perigosa, tóxica e só é capaz de criar barreiras, até mesmo dentro do nosso próprio movimento, com pessoas ou grupos que do ponto de vista estratégico pensam diferente de nós. Se muitas vezes não somos tolerantes até mesmo com veganos que pensam diferente, como conseguiremos dialogar por mudanças comportamentais com quem pensa e age de forma ainda mais diferente? É importante que ativistas não dêem atenção aos grupos que gastam tempo e energia tentando enfraquecer ou desmerecer o trabalho de outros dentro do movimento.

Se queremos transformar o mundo para os animais, esta mentalidade deve ficar no passado. Precisamos ampliar nossos horizontes e começar a atuar a partir de uma perspectiva mais elevada, inclusiva, tolerante e estratégica.

Saber unir forças nos pontos em comum e dialogar com outros grupos do movimento, mesmo com aqueles que pensam e atuam de forma diferente, é fundamental para promovermos transformações significativas. Se queremos que pessoas não veganas, empresas e governos mudem as atitudes deles em relação aos animais, nós devemos saber dialogar com cada um deles. Muito além disso, devemos também pensar de forma estratégica, a partir da perspectiva desses agentes, em como podemos influenciá-los a mudarem a atitude.

Acredito que a fonte de grande parte da intolerância humana se deve à falta da prática e da capacidade de se colocar no lugar do outro. A tolerância e a compaixão são pontos extremamente críticos para iniciarmos o ativismo de forma sustentável e estratégica, pois apenas com esses dois pontos conseguiremos influenciar outros agentes em larga escala por mudanças de atitude significativas para os animais.

Essa mentalidade também é importante se quisermos engajar outros grupos de outros movimentos de justiça social. Afinal, muitos membros desses grupos podem ainda não entender e concordar com a luta pelo fim da exploração animal.

Nossa abordagem nos três pilares, além de tolerante e compassiva, deve ser também pragmática. Pedir pelo que idealmente queremos não será suficiente. Quando nos comunicarmos com pessoas, precisamos entender quais são as principais motivações delas para mudarem seus hábitos. Quando atuarmos com empresas, entenderemos suas motivações, que são quase sempre voltadas ao lucro. Faremos jogadas para que essas empresas entendam a necessidade e as vantagens de promover mudanças positivas. E quando falarmos com agentes no nível governamental, pensaremos também nas motivações deles. O que pode ser usado como argumento e quais abordagens devemos usar para promovermos mudanças nas leis, regulamentações ou nas políticas públicas?

As mudanças acontecerão a partir do momento em que cada agente entender as vantagens que tais mudanças trarão para ele. As motivações irão variar. Enxergar cada agente de cada pilar como potencial aliado, ao invés de inimigo, é o princípio fundamental. Não queremos afastá-los ou criar abismos entre nós. Queremos facilitar e estimular a mudança, e promover mudanças rápidas e significativas para desmontar a indústria que impulsiona a exploração animal.

A indústria da carne não é a nossa inimiga. O nosso maior inimigo na causa é a dificuldade natural que nós, ativistas, temos de saber saber lidar com quem pensa diferente. É no julgamento e no ataque que afastamos, ao invés de inspirar as mudanças que queremos.

Se nós queremos que pessoas, empresas e governos mudem a forma como pensam e agem em relação aos animais, é necessário enxergá-los como possíveis aliados e apresentarmos soluções mais atraentes ao invés de atacá-los. É construindo pontes, ao invés de abismos, que podemos acelerar a mudança da nossa sociedade pelos animais.

Autor: Lucas Alvarenga

Fonte: www.veganismoestrategico.com.br

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