Um retorno ao passado disfarçado de progresso: por que as novas Diretrizes Alimentares dos EUA acendem alertas

O lançamento das Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030 foi apresentado pelas autoridades federais como uma redefinição histórica — uma correção há muito esperada para décadas de confusão nutricional, doenças crônicas e dependência excessiva de alimentos ultraprocessados. À primeira vista, a linguagem é reconfortante. “Coma comida de verdade”, orienta o documento. Evite produtos ultraprocessados. Cozinhe mais. Volte ao básico. São mensagens que poucos cientistas da nutrição contestariam.
Mas, sob essa retórica familiar, esconde-se uma mudança mais profunda e preocupante — que, segundo o Dr. Eric Slywitch, Diretor do Departamento de Medicina e Nutrição da International Vegetarian Union (IVU), representa não progresso, mas retrocesso. Em sua avaliação, as novas diretrizes estão repletas de contradições internas, inconsistências científicas e um viés inconfundível em favor de alimentos de origem animal — algo que pode induzir o público ao erro e minar décadas de consenso nutricional.
Não se trata apenas de uma divergência técnica sobre proporções de macronutrientes. É um debate sobre integridade científica, conflitos de interesse, responsabilidade em saúde pública e os rumos da política alimentar em um país já sobrecarregado por doenças relacionadas à dieta.
Um processo comprometido desde o início
Por décadas, as diretrizes alimentares dos EUA foram revisadas a cada cinco anos com contribuições de comitês científicos consultivos independentes. Esse isolamento de pressões políticas e comerciais foi crucial para sua credibilidade. A edição 2025–2030 rompe com essa tradição.
O Dr. Slywitch aponta um problema processual fundamental: o comitê consultivo por trás das novas diretrizes não era independente no sentido tradicional. Segundo as próprias declarações do documento, a maioria de seus membros tinha conflitos de interesse explícitos, incluindo vínculos financeiros com a indústria de laticínios e produtores de carne — tanto bovina quanto suína.
Isso importa porque diretrizes alimentares não são panfletos educativos neutros. Elas moldam programas de merenda escolar, cardápios hospitalares, políticas de assistência alimentar, padrões nutricionais militares e as orientações dadas por médicos e nutricionistas em todo o país. Quando essas diretrizes são influenciadas — direta ou indiretamente — por indústrias com interesse financeiro no aumento do consumo, o risco de viés deixa de ser teórico.
O Dr. Slywitch argumenta que esse contexto ajuda a explicar o que vem a seguir: um documento que mistura preocupações científicas legítimas com ênfases seletivas, enquadramentos visuais e recomendações que, de forma consistente, pendem para alimentos de origem animal, mesmo quando a literatura mais ampla não sustenta tal priorização.
Proteína: de nutriente a ideologia
Um dos pilares centrais das novas diretrizes é a proteína. O documento orienta os americanos a “priorizar alimentos proteicos em todas as refeições” e estabelece uma ingestão recomendada de 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo de peso corporal por dia.
Em si, incentivar uma ingestão adequada de proteína não é controverso. O problema, observa o Dr. Slywitch, está em como essa recomendação é apresentada e para quem ela se destina.
Ingestões proteicas na faixa de 1,2 a 1,6 g/kg são, em geral, reservadas a populações específicas: atletas competitivos, pessoas em recuperação de certas doenças ou pacientes em contextos clínicos com necessidades aumentadas de proteína. Não há base científica sólida para extrapolar essa faixa para a população geral — especialmente em um país onde a ingestão média de proteína já excede os requisitos mínimos.
Mais reveladora do que os números, porém, é a hierarquia das fontes. Embora proteínas vegetais como leguminosas, feijões, lentilhas, nozes e sementes sejam mencionadas, elas aparecem como uma nota de rodapé — relegadas às últimas linhas dos parágrafos. A ênfase visual e textual favorece de forma consistente carne, aves, ovos e laticínios como os “alimentos proteicos” padrão.
“Isso não é uma apresentação neutra de opções”, argumenta o Dr. Slywitch. “Instrui sutilmente o leitor a entender que a proteína animal deve ser a protagonista de toda refeição.”
O resultado é uma diretriz que, na prática, normaliza um maior consumo de produtos de origem animal sob o rótulo de “adequação proteica”, apesar de evidências extensas que associam o consumo excessivo de carnes vermelhas e processadas a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e certos tipos de câncer.
Laticínios integrais e o paradoxo da gordura saturada
Talvez a contradição mais marcante das diretrizes diga respeito à gordura.
Em uma página, o documento reafirma uma recomendação antiga: a gordura saturada não deve ultrapassar 10% das calorias totais diárias. Isso está alinhado com décadas de pesquisas que associam alta ingestão de gordura saturada ao aumento do colesterol LDL e a maior risco cardiovascular.
Na seguinte, incentiva os americanos a consumir laticínios integrais — três porções ao dia — e a cozinhar não apenas com azeite de oliva, mas também com manteiga e sebo bovino.
Do ponto de vista técnico, essas recomendações são quase impossíveis de conciliar.
O Dr. Slywitch faz uma pergunta simples: como a pessoa média deveria consumir 1,5 g de proteína por quilo de peso corporal — predominantemente de fontes animais — usar manteiga ou gordura animal para cozinhar, comer laticínios integrais diariamente e ainda permanecer abaixo do limite de 10% de gordura saturada?
A resposta, do ponto de vista da ciência da nutrição, é clara: não pode.
Cumprir os limites de gordura saturada enquanto se seguem essas recomendações exigiria uma redução substancial dos alimentos de origem animal e um aumento correspondente de fontes vegetais de proteína e gordura. No entanto, a linguagem visual e a ênfase narrativa do documento apontam na direção oposta.
Essa inconsistência, alerta o Dr. Slywitch, não é um detalhe menor. Ela gera confusão tanto para profissionais de saúde quanto para o público, corroendo a confiança em diretrizes que deveriam esclarecer, não complicar, a alimentação saudável.
Reescrevendo a pirâmide alimentar — visual e ideologicamente
A orientação nutricional não é transmitida apenas por números e texto. Imagens importam. O layout importa. A hierarquia visual importa.
A pirâmide alimentar redesenhada nas novas diretrizes coloca as carnes em posição visualmente dominante, enquanto os grãos integrais — mesmo os grãos integrais ricos em fibras — são relegados a uma base menor e menos proeminente. Essa inversão reflete uma mudança ideológica mais ampla em direção ao pensamento de baixo carboidrato, apesar da ausência de evidências robustas em nível populacional que sustentem dietas low-carb como recomendação universal.
O Dr. Slywitch enfatiza que esse enquadramento visual é poderoso. Em culturas ocidentais, o padrão de leitura vai da esquerda para a direita. O olhar é naturalmente atraído para o que aparece primeiro e em maior destaque. Quando as carnes ocupam esse espaço, a mensagem é implícita, mas inequívoca: esta é a base da dieta.
Isso contrasta fortemente com um corpo robusto de literatura mostrando que dietas ricas em grãos integrais, leguminosas, frutas e vegetais — alimentos naturalmente mais ricos em carboidratos — estão associadas a menores taxas de doenças crônicas e maior expectativa de vida.
Culpar pirâmides alimentares anteriores pela crise de saúde dos EUA, argumenta o Dr. Slywitch, é confundir teoria com prática. A população não adoeceu metabolicamente por seguir orientações ricas em grãos. Adoeceu porque abandonou os alimentos integrais em favor de produtos ultraprocessados — muitas vezes consumidos junto com excesso de gordura animal, açúcar e sal.
Lançando dúvidas sobre dietas vegetais — sem evidências
Entre as seções mais controversas das novas diretrizes está o tratamento dado às dietas vegetarianas e veganas. O documento sugere que essas dietas são propensas a múltiplas deficiências nutricionais — incluindo potássio, um mineral abundantemente presente em frutas, vegetais e leguminosas.
Para o Dr. Slywitch, essa afirmação cruza uma linha crítica.
“Não existe literatura científica confiável que mostre deficiência de potássio como um risco inerente de dietas vegetarianas ou veganas bem planejadas”, observa. Ao contrário, estudos populacionais mostram de forma consistente maior ingestão de potássio entre indivíduos que consomem mais alimentos vegetais.
Embora seja correto afirmar que certos nutrientes — como a vitamina B12 — exigem atenção em dietas veganas, confundir considerações legítimas sobre suplementação com deficiências especulativas ou não comprovadas introduz medo em vez de clareza. Reforça a falsa noção de que a alimentação baseada em plantas é inerentemente arriscada, apesar dos endossos de grandes organizações de nutrição e saúde em todo o mundo.
Esse enquadramento, argumenta o Dr. Slywitch, reflete viés, não equilíbrio — e corre o risco de desencorajar padrões alimentares que são comprovadamente benéficos tanto para a saúde humana quanto para a do planeta.
Ignorando a dimensão ambiental
Talvez o mais marcante seja aquilo que as diretrizes omitem.
Apesar de evidências esmagadoras que ligam padrões alimentares a impactos ambientais, o documento praticamente ignora a sustentabilidade. O Dr. Slywitch aponta que dietas mais ricas em alimentos vegetais e mais pobres em produtos de origem animal estão consistentemente associadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, menor uso de terra e água e menor pressão sobre a biodiversidade.
Essas não são preocupações periféricas. Mudanças climáticas e degradação ambiental são cada vez mais reconhecidas como questões de saúde pública, com implicações diretas para segurança alimentar, padrões de doença e equidade em saúde.
Ao deixar de integrar considerações ambientais — e ao promover visual e retoricamente maior consumo de produtos de origem animal — as diretrizes perdem a oportunidade de alinhar a saúde humana à sobrevivência do planeta.
O que as diretrizes acertam — e por que isso não basta
Para ser justo, o Dr. Slywitch não descarta o documento por completo. Ele reconhece sua contribuição mais forte: a rejeição clara e inequívoca dos alimentos ultraprocessados.
A ênfase em alimentos integrais e minimamente processados, no preparo caseiro, na redução de açúcares adicionados e na evitação de aditivos industriais aborda um problema real e urgente do sistema alimentar americano. Se seguidas, essas recomendações, por si só, poderiam gerar melhorias significativas na saúde.
Mas bons conselhos em uma área não justificam confusão ou viés em outra.
“A mensagem central continua válida”, conclui o Dr. Slywitch. “Mais plantas, menos animais. É aí que a ciência é clara.”
O perigo não está no que as diretrizes dizem explicitamente, mas no que elas insinuam — por meio de imagens, ênfases e interpretações seletivas das evidências. Nesse sentido, as Dietary Guidelines for Americans de 2025–2030 são menos um passo ousado à frente e mais um passo cauteloso para trás: um retorno ao pensamento centrado em produtos de origem animal em um momento em que a ciência, o meio ambiente e a saúde pública apontam todos para outra direção.
Para formuladores de políticas, profissionais de saúde e cidadãos, o desafio agora é ler o documento de forma crítica — e não confundir familiaridade com progresso.
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