O consumo excessivo de açúcar pode acabar com o seu corpo
Nancy Appleton, Ph.D.
www.nancyappleton.com
Em 1912, um francês chamado Louis Maillard descobriu que a razão pela qual alguns alimentos perdiam a cor e endureciam quando cozidos era uma ligação química do açúcar (glicose) do alimento à proteína.
A reação Maillard
Esta
reação faz a torrada ficar marrom e o bife enrijecer durante o
cozimento. É preciso uma temperatura elevada para ligar essas moléculas
de glicose e proteína. Ele descobriu que esta ligação mudava a
estrutura da proteína, o que poderia gerar um problema para o corpo
digerir, assimilar e metabolizar este alimento com nova estrutura.
Além do assado e da fritura, o preparo da maioria dos alimentos envolve
temperatura elevada e a reação de Maillard é um problema em qualquer
alimento assim aquecido. Desde 1912, houve mais pesquisas sobre a
reação Maillard, ou reação de escurecimento, porque o câncer foi
vinculado a este processo.
Os cientistas que estudam os alimentos tentam o tempo todo encontrar um
método para retardar ou impedir esta reação nos alimentos
industrializados. Para mim, parece melhor não consumir alimentos
processados em alta temperatura em vez de procurar uma poção mágica que
impeça a reação, que pode causar seus próprios problemas, ou de
procurar uma pílula que impeça a reação a ser receitada para quem comeu
alimentos cozidos demais, que por sua vez pode ter seus próprios
efeitos colaterais.
Recentemente, novas pesquisas mostraram que esta mesma reação de
ligação anormal do açúcar com a proteína pode acontecer no organismo
quando o nível de glicose no sangue torna-se e permanece elevado.
Em 2002, o consumo de açúcar nos Estados Unidos foi de quase 80 quilos
por pessoa por ano. Este absurdo de açúcar pode fazer com que alguns
tenham nível elevado de glicose no sangue, muito mais elevado do que no
passado, quando comíamos menos açúcar. Quando o nosso sangue e nossas
células sangüíneas são inundados constantemente com tanto açúcar, este
pode ligar-se de forma não enzimática às proteínas.
Talvez não pareça coisa muito grave, mas é. Há um processo normal em
que o açúcar se une enzimaticamente às proteínas em nosso organismo
para formar glicoproteínas, essenciais para o funcionamento do corpo.
Todas essas reações químicas em tecidos vivos estão sujeitas ao
controle estrito das enzimas e obedecem a um programa metabólico muito
bem regulado. Quando as enzimas ligam a glicose às proteínas, fazem-no
num lugar específico, numa molécula específica, com um propósito
específico.
O açúcar e a proteína não deveriam unir-se de forma não enzimática.
Quando isso acontece, o produto formado chama-se proteína glicosada ou
Produto Final Glicosado Avançado (PGA). Este processo pode alterar
permanentemente a estrutura molecular da proteína e, em conseqüência,
alterar a maneira como os PGA funcionam no organismo. A proteína
torna-se tóxica para o corpo.
A toxidez faz com que as células não funcionem da melhor maneira,
provoca danos ao corpo e resulta num sistema imunológico esgotado. Com
o tempo, acontece a degeneração. Essas mudanças podem começar como
pequenos transtornos ou incapacidades e, mais tarde, prosseguir até se
transformarem em doenças específicas.
Este dano às proteínas acontece em dois estágios. O primeiro produto
formado pelo ataque da glicose à proteína é conhecido como base de
Schiff, que fica no corpo durante alguns dias. A base de Schiff é
instável e sofre uma lenta reformulação química que dura várias semanas
até formar uma união mais estável, os produtos de Amadori.
Esses produtos sofrem mais reações até a transformação em PGA, que é
irreversível. Os PGA são caracterizados como pigmentos marrons ou
fluorescentes e parecem promover muitas complicações relacionadas à
idade, como aterosclerose, hipertensão, catarata, degeneração da
mácula, rigidez das articulações, artrite reumatóide, mal de Alzheimer
e diabete.
O glicosamento das proteínas do sangue acontece
quando o nível de glicose dispara e permanece alto. Quem toma um único
refrigerante, come uma barra de chocolate ou um pão doce de estômago
vazio descobre que o nível de glicose em seu sangue dispara. O
habitante médio dos Estados Unidos de hoje toma mais de 576 doses de
350ml de refrigerante por ano ou 1,6 latinhas de 350 ml por dia. Um
adolescente do sexo masculino toma 868 refrigerantes por ano.
Cada refrigerante tem 10 colheres de chá de açúcar e, assim, cada
pessoa ingere cerca de um quarto de xícara de açúcar todos os dias só
no refrigerante. O consumidor médio ingere mais de meia xícara total de
açúcar por dia. Este excesso pode deixar o sangue inundado de açúcar
quase o tempo todo, levando a conseqüências como a anulação do sistema
imunológico.
Um estudo recente apresentado na reunião anual da Diabetes Association
de São Francisco mostra que comer alimentos tostados pode provocar
enfartes, derrames e danos aos nervos.
Há muitos anos os cientistas sabem que cozinhar proteínas com açúcares
na ausência de água forma PGAs que podem danificar os tecidos do corpo.
Os diabéticos sofrem uma incidência altíssima de danos aos nervos, às
artérias e aos rins porque o nível elevado de açúcar no sangue acelera
muito em seu organismo as reações químicas que formam produtos
glicosados avançados.
O que mais assusta é que ingerir alimentos com esses PGAs eleva seu
nível no sangue e nos tecidos e aumenta os danos neurológicos. Cozinhar
com água impede que o açúcar se ligue à proteína para formar essas
substâncias químicas venenosas.
Cozinhar sem água faz com que o açúcar se combine com as proteínas para
formar PGAs. Assim, assar, tostar e grelhar provocam a formação dos
venenosos produtos glicosados avançados, enquanto ferver e cozer no
vapor impedem-na. Segundo essas novas descobertas, os alimentos
assados, como biscoitos, casca de pão tostada, carne assada, feijão
assado no forno, típico dos EUA, e até o café torrado podem aumentar o
dano neurológico, principalmente em diabéticos, muito mais suscetíveis
a este tipo de dano.
Por outro lado, como as hortaliças cozidas, os cereais integrais, as
leguminosas (feijões) e as frutas são preparados com água, não contêm
volume significativo de produtos glicosados avançados. Com toda a
certeza esta é mais uma razão para remover da dieta o máximo possível
de açúcar, o mais cedo possível, e comer principalmente alimentos crus
ou cozidos no vapor.
Nancy Appleton é autora de Lick the Sugar Habit , Lick the Sugar Habit Sugar Counter , The Curse of Louis Pasteur , Heal Yourself with Natural Foods e Healthy Bones .
Seu sítio na internet é: www.nancyappleton.com
Comentário do dr. Mercola:
Muito obrigado a Nancy pelo texto sobre o açúcar. Ela escreveu o clássico Lick the Sugar Habit e mais vários artigos para este sítio, listados abaixo.
Um dos meus preferidos é Metabolic Typing
, que identifica suas necessidades genéticas e bioquímicas individuais.
Uma coisa é clara: seja qual for o seu tipo metabólico, açúcar não vai
lhe fazer bem.
Outra grande preferência
minha é tentar consumir o máximo possível de alimentos crus. O consumo
de alimentos crus tende a limitar muitos problemas das proteínas e dos
PGAs discutidos acima.
Temos também hoje em dia a exposição à acrilamida, produto químico
considerado como provável carcinogênico e que se formaria pelo
aquecimento dos amidos. Isso tem sido noticiado ultimamente e será mais
uma prova do mal de cozinhar vários alimentos.
Alguma luz no fim do túnel: açúcar não é ruim para todo mundo o tempo
todo. Se você tem boa saúde e seu peso é normal, parece que o mel cru e
puro, usado moderadamente, é um adoçante aceitável.
Tradução: Beatriz Medina
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