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TÓPICO: Entrevista 2

Entrevista 2 11 anos 2 meses atrás #1055

Prezado Sr. Sérgio Greif,

Seguem abaixo as perguntas da entrevista relativa à matéria que estamos fazendo sobre bioética, vivissecção e defesa dos animais (no Curso de Especialização em Jornalismo Científico da UNICAMP). Por favor, fique à vontade para respondê-las da forma mais completa possível.
Estamos contatando também médicos, biólogos e cientistas ligados a comissões de ética. A idéia principal é levar ao público o debate em torno das experiências com animais, seus prós e contras, bem como as vantagens e desvantagens dos métodos alternativos. A partir daí, discutiremos a ética em relação aos seres vivos dentro e fora dos laboratórios. Também estamos contatando ONG’s de defesa dos animais. Muito obrigado e um abraço,

Alfredo

Pauta:
Sr. Sérgio Greif
Biólogo, autor de Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação – pela ciência responsável

1)Como o sr. compara o Brasil a demais países do mundo no que diz respeito à bioética e defesa dos animais?


R. O Brasil possui leis bastante específicas no que se refere aos direitos dos animais. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), por exemplo, estabelece no artigo 17 multas para quem abusar, maltratar, ferir ou mutilar animais (silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos) e é bastante específica em seu parágrafo único ao afirmar que “Incorre nas mesmas multas, quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.” Ou seja, esta lei torna o uso prejudicial de animais na ciência e no ensino crime em todo o território nacional.

Mesmo anteriormente a esta lei, o uso prejudicial de animais no ensino era bastante restringido pela Lei nº 6.638/79, que proíbe, por exemplo, a vivissecção em animais não devidamente anestesiados, ou que os procedimentos ocorram em locais não apropriados, sem a supervisão de técnicos especializados ou em presença de menores de idade. De fato, some-se a isto a obrigatoriedade do tempo de permanência dos animais em biotério legalmente autorizado pelo prazo mínimo de 15 dias e poderemos contar nos dedos os estabelecimentos que poderão utilizar animais para fins didáticos no Brasil.

A legislação que possuímos encontra-se em patamar equivalente à legislação vigente em países europeus, consideradas as mais avançadas. No entanto, no Brasil, a profundidade desta legislação é freqüentemente ignorada, sendo que sua aplicação tem sido feita exclusivamente para a defesa de animais domésticos (cães e gatos) ou silvestres.

Mesmo a legislação européia, com leis mais progressivas no que diz respeito aos animais de experimentação obviamente é falha em muitos pontos e tem encontrado oposição de grupos anti-vivisseccionistas cujo objetivo final é a completa abolição do uso prejudicial de animais.

Como a pergunta se refere à defesa de animais, talvez em um sentido mais amplo, vale ressaltar que nossas leis referentes à caça e ao trafego de animais silvestres são mais progressivas do que a legislação de muitos países desenvolvidos

2)Quais são os principais métodos alternativos ao uso de animais vivos em pesquisas científicas e no ensino de ciências?


R. A palavra “alternativas” desperta certa confusão entre os cientistas porque muitos tem tentado entender tais técnicas como aquelas que poderão ser de alguma forma “alternadas” com experimentos realizados em animais. Além do mais, quando aceitamos que as técnicas que propomos são alternativas, estamos implicitamente aceitando que as técnicas que utilizam animais são o correto. Assim, por uma questão de comodidade (porque trata-se de um termo já em uso) temos continuado a utiliza-lo, mas mais adequado talvez fosse passar a denominar tais técnicas como “substitutivas”, ou que fosse criado um termo próprio para inclui-las.

O conjunto de técnicas alternativas (ou substitutivas) inclui os testes in vitro (em tecidos, células animais, vegetais ou microorganismos), a utilização de vegetais quando possível, as simulações computacionais, os estudos clínicos em pacientes reais, os estudos não invasivos em voluntários, os estudos epidemiológicos, as técnicas fisico-quimicas, (espectrometria de massa, cromatografia, tomografia, etc), o estudos em cadáveres, a utilização de manequins especialmente criados para determinados procedimentos, softwares educacionais, filmes, modelos matemáticos, a nanotecnologia, estudo observacional de animais, entre outras. Cada fim pretendido demanda a adoção de uma ou mais técnicas, e mesmo dentro destas técnicas há inúmeras possibilidades.

Assim, por exemplo, um determinado teste toxicológico que demandaria vários animais pode, com sucesso, ser substituído por uma bateria de testes em células de diferentes linhagens e seguindo diferentes metodologias. É claro que a escolha destes testes não é aleatória e tem relação com os objetivos pretendidos. Técnicas fisico-químicas podem ser aplicadas para identificar os diferentes componentes da droga e desta forma refinar os testes. Modelos computacionais e matemáticos, bem como placentas obtidas junto a maternidades podem auxiliar a compreender, por exemplo, de que forma a droga se distribuirá pelo organismo e como será sua absorção.

3)Quais as vantagens e desvantagens tanto das experiências científicas com animais quanto do recurso a métodos alternativos?


R. Sou radicalmente avesso à experimentação prejudicial de animal não apenas por uma questão ética, mas porque trata-se de um método que pretende assegurar a população através de uma metodologia que jamais foi validada e utilizando modelos que de forma alguma correspondem às formas de vida que estes pretendem simular.

É verdade que a experimentação animal movimenta um conjunto de industrias e gera determinado número de empregos, mas a população favorecida por esta industria é insignificante quando comparada à população prejudicada por estas industrias. Além disso, a abolição da vivissecção criaria a possibilidade de outras industrias se estabelecerem e outras formas de mão de obra serem geradas.

Quanto às vantagens dos métodos alternativos, eles são a médio e longo prazo mais baratos; são mais refinados; eles fornecem dados mais confiáveis, facilmente reproduzíveis e em menor tempo; sua aplicação não implica em constrangimento a nenhuma parte, ou seja, pessoas que tenham considerações éticas, restrições religiosas e mesmo crianças podem acompanhar sua aplicação. De fato, há muitas vantagens da aplicação de técnicas alternativas.

4)As indústrias de carnes, de medicamentos, de cosméticos, de roupas, entre outras, são fortemente dependentes da exploração comercial dos animais. Como o sr. vê a economia mundial face a um rearranjo das relações entre animais humanos e não-humanos?


R. Esta é uma pergunta bastante freqüente. Costumo analisar a industria da exploração de animais como analiso a industria da exploração humana: Será que a alegação de que a economia depende da escravidão justificaria moralmente a exploração de escravos? E o número de empregos gerados pela industria do tabaco justificaria o incentivo a esta produção?

Se por uma hipótese improvável nos tornássemos todos, repentinamente, vegetarianos e abolíssemos o uso de couro, peles, medicamentos testados em animais e tudo o que deriva da exploração animal, certamente haveria um período de transição para um novo modelo econômico onde um número significativo de pessoas estariam desempregadas. Mas novas empresas logo se estruturariam e uma nova geração de técnicos se formaria, alterando o perfil da mão de obra.

Mas como dissemos anteriormente, é bastante improvável que a exploração animal seja completamente abolida da face da terra repentinamente. Provavelmente isto ocorrerá ao longo de muito tempo e a transição ocorrerá de forma mais branda.

5)Por favor, fale um pouco sobre o livro Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação – pela ciência responsável, sua origem e objetivos. Também gostaríamos de saber um pouco sobre a sua trajetória nesse contexto (quando começou seu trabalho em defesa dos animais, quais os projetos em que está ou esteve envolvido, etc.).

R. Eu possivelmente me tornei ativista pelo direito dos animais em 1980, quando adotei o vegetarianismo. A adoção do vegetarianismo foi espontânea e não pode ter sido influenciada, porque até então não conhecia o termo (eu tinha 5 anos de idade) e não conhecia ninguém que não comece carne. Embora eu adorasse lingüiça, churrasco e frango, aboli estes alimentos assim que soube que os mesmos derivavam da morte de animais.

A justificativa de que saciar a fome era uma boa desculpa para o abate de animais (que segundo me informavam, ocorria de forma indolor e sem qualquer sofrimento) e a justificativa religiosa de que os animais foram criados para nossa conveniência não me convenceram a abandonar o vegetarianismo, e acabei abandonando a religião e a ética tal qual conhecemos.

Na década de 80 os médicos ainda acreditavam que a carne e outros alimentos de origem animal eram necessários para a sobrevivência humana, assim, meus pais foram aconselhados a “camuflar” carne entre outros alimentos, o que não deu certo porque logo percebi o que eles faziam. Os médicos recomendaram que meus pais me alimentassem com uma quantidade sobre-humana de alimentos e prescreveram formulações que nunca utilizei, tudo isto para satisfazer minhas necessidades nutricionais. Instintivamente eu sabia que minha alimentação era adequada, mas não podia discutir com médicos. Já no meu ciclo de amizades e junto à família sentia-me á vontade para disseminar a alimentação sem crueldades, e logo consegui convencer algumas pessoas.

Aos 11 anos de idade um endocrinologista me examinou e perguntou se eu tomava a medicação prescrita. Receoso informei que não. Ele então me informou que eu havia me desenvolvido como uma criança normal, mesmo sem haver abandonado o vegetarianismo nem adotado a suplementação. Senti-me vitorioso, não porque os médicos estivessem errados, mas porque instintivamente soube determinar o que era certo para mim e mantive-me firme neste propósito>

Aos 12 anos, aproximadamente, tomei conhecimento sobre a experimentação animal através de uma publicação que um Testemunha de Jeová vendeu à minha porta. A matéria não era contra nem à favor, mas serviu para me fazer pensar. É claro que eu já havia sido informado de que todos os medicamentos e outros produtos eram testados em animais antes de serem colocados à disposição de seres humanos, mas a experimentação animal não me incomodava porque não tinha conhecimento referente ao que era feito com os animais.

Na época eu tinha dois ratos albinos como animais de estimação e para explicar para as pessoas de que não se tratavam de hamsters, dizia com orgulho que eram “ratos de labotatório, destes que ajudam os cientistas a fazer pesquisa”. De certa forma até então não sabia que o organismo destes animais era invadido, eles eram abusados e ao fim abatidos. A mesma visão romântica que muitos tem da experimentação animal eu também tinha. Além disto, embora eu houvesse perdido a confiança na classe médica devido ao episódio do vegetarianismo, eu não tinha elementos para questionar a experimentação animal.

Desde pequeno tive interesse por biologia, e como minha escola obrigava que levássemos todas as semanas recortes de jornais para discutirmos com a classe, eu sempre escolhia artigos que tivessem relação com biologia. Comecei a perceber que freqüentemente os artigos referentes a medicamentos tratavam de efeitos colaterais e drogas retiradas do mercado por ineficácia ou risco. Comecei a me questionar porque que os testes em animais não haviam identificado esta ineficácia ou este risco.

É claro que ainda não me sentia confortável para argumentar extensivamente contra a experimentação animal, mas parte de meu raciocínio se formulou á partir daí. Quando na época de prestar o vestibular muitos me desaconselharam a cursar biologia, visto que muitas aulas implicariam na morte de animais.

Na faculdade recusei-me a participar de aulas que implicassem diretamente na morte de animais (utilizava, porém, preparações histológicas fixadas em lâminas). Tive atritos com muitos professores, mas de forma respeitosa soube impor meus pontos de vista e até certo nível influenciar alguns colegas. Nesta época escrevia ensaios para publicações avulsas (fanzines). Em 1999 fui contactado pela Presidente de uma ONG do Rio de Janeiro (Sheila Moura) que havia lido um de meus ensaios em um fanzine, e me solicitou escrever alguns ensaios. Nesta mesma época soube de um estudante de biologia (Thales Tréz) que escrevia textos sobre a mesma temática. Em 2000 resolvemos compilar o conteúdo dos ensaios que havíamos escrito na forma de um livro, e assim surgiu “A Verdadeira Face da Experimentação Animal – A sua saúde em perigo”, escrito em conjunto.

Neste livro questionávamos a experimentação animal não por sua implicação ética, mas principalmente como um erro metodológico, que tinha influencias negativas para a saúde humana. O livro teve boa aceitação, mas em um sentido prático sentiamos que ele não estava causando o impacto necessário.

Preocupou-me o fato de que a Lei nº 9.605/98 estabelecia no parágrafo único do artigo 17 “Incorre nas mesmas multas, quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos”, mas freqüentemente se contra-argumentava que para muitos dos experimentos não haviam recursos alternativos. Sinceramente acreditamos que a necessidade seja a mãe da invenção, e a abolição da vivissecção seria o maior incentivo para o surgimento e evolução de novos modelos, mas considerando que nem todo cientista e/ou professor teria a vontade e disposição de buscar por recursos, sentimos a necessidade de compilar algum material relativo aos métodos alternativos disponíveis para utilização.

Considerando que o tema era bastante abrangente, resolvemos por limitar este primeiro material às alternativas na educação, sendo que posteriormente elaboraríamos um material especifico sobre as alternativas ao uso de animais na pesquisa. Desta forma, surgiu um esboço deste segundo livro que inicialmente foi denominado simplesmente “Alternativas ao Uso de Animais na Educação”. Posteriormente, por ocasião de sua publicação pelo Instituto Nina Rosa, o livro teve seu nome alterado para “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação – pela ciência responsável”

Para a elaboração deste segundo livro foi fundamental a existência de ótimas publicações que serviram como fonte de consulta, tais como o livro “From Guinea Pig to Computer Mouse” (publicado pela EuroNICHE, mais tarde InterNICHE - International Network for Humane Education), o livro do Dr. Jonathan Balcombe “The Use of Animals in in Higher Education: Problems, Alternatives, and Recommendations”, diversas brochuras e sites da internet.



Considerando a diversidade e qualidade do material disponível em línguas estrangeiras, o livro é apenas um pequeno esforço no sentido de introduzir o público brasileiro ao tema das alternativas, e assim fazer valer a Lei nº 9.605/98. Infelizmente, por ocasião de sua compilação, Thales Tréz encontrava-se residindo na Bélgica e não pode participar da elaboração do material. Ressalte-se aqui seu mérito em haver criado e mantido por todo este tempo a InterNICHE Brasil ( www.internichebrasil.org/ ), entidade criada com o o objetivo de difundir o conhecimento sobre alternativas na educação e apoiar à liberdade de consciência.

Atualmente encontro-me afastado da vida acadêmica, trabalhando em uma empresa estatal (CETESB), no entanto pretendo ainda me dedicar a produzir um material sobre alternativas ao uso de animais na pesquisa.

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