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TÓPICO: Entrevista 1

Entrevista 1 11 anos 9 meses atrás #945

Olá Sérgio
> >
> > Pesquisando a respeito para fazer uma matéria sobre a
> > Vivissecção, prática que causa polêmica em todo o Brasil e no
> mundo;
> > entrei em contato com algumas ONGs e as mesmas me apresentaram
> > justificativas para que a prática seja abandonada de vez;
> muitas delas
> > me indicaram seu nome.
> >
> > Gostaria de saber se há a possibilidade de fazermos uma
> entrevista a
> > respeito, pois estou ouvindo o conselho de farmácia, Anvisa e
> > ambientalistas.
> >
> > Aguardo retorno e grata pela atenção.
> >
> > --
> > Att,
> > Adriane Baldini


Oi Adriane:
>
> Mande-me as perguntas que terei prazer em responde-las.
>
> abraços
>
> Sérgio Greif

Olá Sergio!
>
> Agradeço - e muito - tua colaboração para com a revista.
> Antes, apresento-me: sou editora-chefe de uma revista
> socioambiental, com sede em Curitiba. A mesma tem como
> público-alvo empresas de todos os segmentos que investem ou não em
> projetos sociais, ambientais e culturais; secretarias municipal e
> estadual de Educação e Meio Ambiente; colégios; universidades;
> bibliotecas; pesquisadores; interessados e estudiosos - portanto,
> pessoas que desconhecem (ou que conhecem, mas com menos
> profundidade) o tema do qual estamos abordando.
>
> Cheguei ao tema da Vivissecção devido a uma curiosidade particular
> minha (afinal sou profissional formada na área de Humanas) e a
> polêmica que AINDA causa no Brasil e ao redor do mundo.
>
> Entrei em contato com algumas entidades que defendem esta causa, e
> as mesmas me apresentaram justificativas para que a prática seja
> abandonada de vez, mas sem muita profundidade.
>
> Por outro lado, ouvindo entrevistas, alguns médicos afirmam que se
> não fossem os testes com animais, os que seriam feitos em humanos
> os levaria a efeitos colaterais extremamente violentos, chegando
> até a morte.
>
> Mas, as questões que desejo saber de ti, são relacionadas aos
> seguintes tópicos abaixo:
>
> - Como é a fiscalização da Anvisa (como ela direciona, fiscaliza e
> pune)?
> - Quais são os países que ainda adotam a prática da Vivisecção? E
> os que baniram?
> - A Vivisecção é usada somente na área de farmácia ou em outras?
> - O camundongo é o animal mais usado em testes? Quais são os outros?
> - O que é feito dos camundongos e outros animais que são testados
> e mortos por reações diversas?
> - Ouvi de um militante da causa que "testes em animais não
> condizem, pois, são seres vivos diferente a dos humanos. Portanto,
> as reações neles são uma, e nos humanos são outra". Porque então
> os animais são usados?
> - Quais são os métodos alternativos existentes hoje para testes
> farmacológicos?
> - O que é o termo "cruelty-free"?
> - O que as Academias de Farmácia e Biologia pensam a respeito?
> - Se existe a lei que proibe maus-tratos com os animais, porque é
> permitido o uso de camundongos nas universidades?
> - Como mudar uma sociedade que vê os animais como inferiores aos
> homens?
> - (Uma pergunta que pode parecer infantil, mas preciso de uma boa
> resposta....) Qual a diferença entre matar animais para comer e
> matar animais para experiências?
> - Em nível global, é possível pensar num mundo vegetariano?
> (Lembrando que para a fome na África, estão oferecendo os
> transgênicos - Qual tua opinião sobre isso?)
>
> Sei que algumas perguntas se parecem muito uma com as outras, mas
> podem ser respondidas de forma única, assim como considerações
> podem ser enfatizadas também, se assim desejar.
>
> A respeito da revista do qual sua participação será publicada, em
> anexo (PDF) está a apresentação da mesma.
>
> Agradeço muito a atenção e aguardo-te!
>
>
> Meus contatos estão abaixo, caso haja alguma dúvida, por
> gentileza, ligue.
>
> Uma boa tarde,
> Adri Baldini


Oi Adriane:

Estava respondendo suas perguntas com longos textos explicativos, mas
creio que seja melhor eu ser um pouco mais sintético, o que também te
ajudará na hora de selecionar trechos.

Aqui vai
>
>
> - Como é a fiscalização da Anvisa (como ela direciona, fiscaliza e
> pune)?
>
Sobre a fiscalização da ANVISA, é melhor consultá-los com uma pergunta
mais específica. O órgão em que trabalho é a CETESB e tanto a atividade
quanto a forma de proceder são bastante distintos

> - Quais são os países que ainda adotam a prática da Vivisecção? E
> os que baniram?
>
No momento todos os países do mundo praticam experimentação animal.
Mesmo nos países onde se alega que ela está sendo regulamentada a
situação dos animais não é melhor.

> - A Vivisecção é usada somente na área de farmácia ou em outras?
>
A experimentação animal é utilizada em muitos outros ramos de pesquisa,
tais como toxicologia, fisiologia, anatomia, histologia, bioquimica,
pesquisas sobre desenvolvimento fetal, pesquisas comportamentais,
pesquisas na área de imunologia, microbiologia, parasitologia,
cirurgia experimental, testes balísticos e muitos outros.

> - O camundongo é o animal mais usado em testes? Quais são os outros?
>
Não possuímos números exatos, mas é certo que a maioria dos testes são
realizados em camundongos e ratos.

Outros animais que podem também ser utilizados são invertebrados
diversos, hamsters, gerbils, porquinhos-da-india, sapos/rãs, lagartos,
cobras, tartarugas, pombos, galinhas, porcos, ovelhas, cães, gatos,
macacos (principalmente mico de cheiro, babuinos ou chimpanzés), ferrets
ou qualquer outro animal que se tenha à disposição.
>
> - O que é feito dos camundongos e outros animais que são testados
> e mortos por reações diversas?
>
Por recomendação sanitária todos os animais mortos em laboratórios devem
ter suas carcaças tratadas como lixo hospitalar. Não é o que se faz com
eles depois que morrem o problema, o problema é o que fazem enquanto
estão vivos.

> - Ouvi de um militante da causa que "testes em animais não
> condizem, pois, são seres vivos diferente a dos humanos. Portanto,
> as reações neles são uma, e nos humanos são outra". Porque então
> os animais são usados?
>
Muitas pessoas acreditam que o lobby do tabaco e das bebidas alcoólicas
é muito poderoso, mas há um lobby ainda maior do qual estas duas
indústrias também fazem parte. Do lobby da vivissecção fazem parte os
governos, as indústrias farmacêuticas, as indústrias produtoras de
alimentos, as indústrias de bens de consumo diversos, os fabricantes de
ração, as empresas que fabricam suprimentos para laboratórios, gaiolas,
equipamentos de contenção, comedouros, etc etc. Mesmo coisas óbvias como
a de que os rios correm para o mar, ou que a terra é que está em órbita
em torno do Sol, seriam ignoradas pela maioria das pessoas se este fosse
o interesse deste lobby. O fato de que as diversas espécies animais
respondem de forma diferente a determinado estímulo é óbvia, mas a
maioria das pessoas tem dificuldade em entender que estas diferentes
respostas apenas criam confusão quando tentamos interpretá-las e
aplicá-las aos seres humanos. Esta dificuldade deriva da crença de que
os cientistas estão sempre certos e de que o que está escrito em um
trabalho científico não pode ser contestado. A própria base da ciência é
a contestação, a não aceitação de paradigmas. Se fosse para escolhermos
uma carreira onde houvessem dogmas, deveríamos ter optado pela teologia,
e não pela ciência.

> - Quais são os métodos alternativos existentes hoje para testes
> farmacológicos?
>
Para testes farmacológicos há uma ampla gama de testes que podem ser
realizados sem a utilização de organismos vivos e sencientes. Por
exemplo, pode-se primeiramente tentar prever qual será a atuação da
molécula no organismo através de um programa computacional que permite
comparar a estrutura molecular do composto com uma gama de compostos
conhecidos e tentar verificar com quais sitios de ligação esta molécula
poderá se ligar. Programas também permitem tentar aferir a atuação da
molécula no organismo. Pode-se submeter o composto a uma bateria de
testes de toxicidade in vitro que permitam saber qual seria sua
citotoxicidade, bem como a toxicidade do composto aos diversos órgãos.
Poderia-se interagir linhagens celulares em frascos de co-cultura, de
forma a se obter resultados de sua toxicidade após, por exemplo, uma
transformação hepática. Constatada sua não toxicidade, poderiam-se
começar os testes farmacológicos, com primeiramente com um pequeno grupo
de humanos voluntários, em seguida com um número maior de voluntários, e
depois com um pequeno número de pacientes reais. Isto que te falei é
apenas um exemplo, poderiam se criar outros protocolos experimentais
mais complexos.

> - O que é o termo "cruelty-free"?
>
"Cruelty-free" significa livre de crueldade. É considerado livre de
crueldade qualquer bem ou serviço que não tenha sido produzido às custas
da exploração animal, daí entenda-se que na formulação do produto não
pode haver derivados de animais e que o produto não pode ter sido
testado em animais. Serviços cruelty-free também não podem utilizar
animais de forma alguma.
>
> - O que as Academias de Farmácia e Biologia pensam a respeito?
>
As universidades fazem parte do lobby e o defendem. Fazer parte do lobby
não significa uma atividade imoral ou proposital, o lobby existe para
defender seus interesses, e a universidade tem interesse em que a
experimentação animal continue existindo porque muitas linhas de
pesquisa na área de biomédicas fazem uso de animais e muito do
financiamento para pesquisas provém de indústrias que lucram com a
exploração animal. Mas quando conversamos com calma com os professores,
reservadamente, muitos reconhecem que da forma como é realizado não está
correto. Esta sensação de que algo está errado e precisa mudar criou a
necessidade de uma reforma na experimentação animal, e uma mudança de
discurso. Assim, é comum que pessoas que tem interesse na continuidade
da experimentação animal defendam que gostam de animais, que os
respeitam, e que procuram tratá-los de forma ética, que tentam reduzir o
número de animais que "precisam" ser utilizados e que o dia que puderem,
certamente substituirão os animais, mas que este dia nunca vai chegar.
Este discurso é ainda pior do que o anterior, porque muita gente passa a
acreditar que de fato está falando a verdade, e muita gente que acha
estar protegendo animais começa a se interessar por fazer parte de
comissões de ética.

> - Se existe a lei que proibe maus-tratos com os animais, porque é
> permitido o uso de camundongos nas universidades?
>
Não apenas camundongos, mas toda uma variedade de animais. Esta é uma
boa pergunta. A resposta é que as leis, da forma como estão elaboradas,
não servem para proteger animais. Note, por exemplo, que a lei proíbe
maus-tratos, mas não os define. Pelo contrário, em muitos artigos ela
apoia que mau tratemos animais de forma institucionalizada. A lei de
crimes ambientais, por exemplo, permite que se faça de tudo com os
animais (matar, experimentar neles, etc) desde que autorizado pelo órgão
competente . O artigo que trata da experimentação animal diz :

*"Art. 32.* Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar
animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

§ 1º. Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou
cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos,
quando existirem recursos alternativos.

§ 2º. A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do
animal. "

Ora, basta a pessoa dizer que as experiências conduzidas não eram cruéis
nem dolorosas, ninguém pode provar que eram porque não existe uma
máquina que diga o que é a dor dos outros. O artigo também condiciona a
experimentação animal à inexistência de recursos alternativos. Os
recursos alternativos já existem, eles apenas não são reconhecidos
porque precisam ser validados comparando-se seus dados com o de
experimentos realizados em animais ( que como vimos não são válidos).
Este é o tipo de armadilha que as pessoas que defendem animais caíram
achando que estavam fazendo bom negócio.



> - Como mudar uma sociedade que vê os animais como inferiores aos
> homens?
>
Da mesma forma que combatemos o racismo ou o sexismo, através da
educação e do bom exemplo. Quando tornamos nossas vidas testemunhos de
que é possível viver sem explorar animais, quando nos empenhamos em
explicar às pessoas que os animais são seres sencientes e que isto por
si só é razão suficiente para respeitemos seus direitos básicos, fazemos
com que um pouco da sociedade se transforme. Isto não necessariamente
implica em protestos ou na constituição de um a ONG para lutar por este
fim, ou ficar criando caso aqui e ali. Esta é uma reforma que começará
de baixo e cada indivíduo terá seu papel.

> - (Uma pergunta que pode parecer infantil, mas preciso de uma boa
> resposta....) Qual a diferença entre matar animais para comer e
> matar animais para experiências?
>
Não há diferença alguma entre matar animais para comer e matá-los em
experimentos (esta não é uma pergunta infantil, pelo menos muitos
adultos já me fizeram). A diferença está na cabeça das pessoas que se
indignam com o fato de um cão ser aberto em uma aula de fisiologia mas
não se sentem indignadas em comer carne. É natural do ser humano só
enxergar o problema nos outros e talvez esta seja a melhor resposta,
porque é mais fácil a pessoa parar de comer carne do que fazer com que
uma universidade pare de matar animais em experimentos, mas a pessoa
opta por fazer o que é mais difícil porque o mais fácil representaria
uma mudança pessoal e quem está errado são os outros.

> - Em nível global, é possível pensar num mundo vegetariano?
> (Lembrando que para a fome na África, estão oferecendo os
> transgênicos - Qual tua opinião sobre isso?)
>
Não sei se entendi a parte dos transgênicos, mas tentarei responder sua
pergunta: O vegetarianismo é uma solução para o problema da fome no
mundo (a outra solução seria um cataclisma mundial que reduzisse
drasticamente a população).

Recomendo que você leia este artigo
www.svb.org.br/depmeioambiente/VegetarianismoeCombateaFome.htm

Os transgênicos não seriam a solução, porque eles criariam um aumento
substancial da oferta em um primeiro momento (o que não significa boa
distribuição de alimentos), inviabilizariam a produção de produtos não
transgênicos e se estabeleceriam como monopólio. Não entrarei aqui nas
questões ambientais e de saúde porque esta parte da discussão é muito
polêmica.

Se eu puder receber uma cópia da revista agradeço

abraços

Sérgio

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