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Fidelidade e traição entre cães e seres humanos - Página 8

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[continuação]

“Expedindo o Regulamento n. 36 de 22 de maio de 1899, [esclarecia o prefeito] que encontrareis em anexo, contratei, a 16 de outubro, o serviço, tanto da apreensão, como da extinção, com a Sociedade Protetora dos Animais, a qual se esforça por bem cumprir as estipulações, a que se obrigou, e de cujas vantagens ainda parece cedo para julgar, não cessando a Prefeitura de reclamar-lhe toda atividade. (...) Havendo a associação, a que me referi, começado os seus trabalhos em meados de novembro último, pode-se calcular o quanto tem feito, considerando-se que até à presente data foi de 2.551 o total de cães apreendidos dos quais mataram-se 2.313, entregara-se aos respectivos donos 72 e venderam-se 166. Não julgo, portanto, difícil dentro em breve vermos a cidade livre do perigo que constantemente ameaçava os transeuntes e o qual, não há dúvida, já diminui de modo considerável.”

Em 70 anos de legislação municipal que analisamos, ou seja, de 1870 a 1940, percebem-se claramente tentativas inúteis, e invariavelmente cruéis, de controlar a população de cães nos espaços urbanos. Caracterizada por revogações, emendas e acréscimos fica evidente que o poder público municipal, em seus projetos de modernização da cidade, não encontrava uma forma de “harmonizar” esses animais a seus anseios. Das bolas envenenadas ao rígido registro e cobrança de licenças e multas não havia meio de eliminar a noção de “vagabundagem” que caracterizava a vida dos cães na cidade, independentemente do fato de serem de raça ou não. A rigidez jurídico-administrativa enfrentava dificuldades para acomodar-se às maleabilidades da vida. É curioso observar que, em São Paulo, a UIPA, nos seus primórdios, esteve totalmente atrelada ao poder público municipal. Pelo que se pode observar na legislação referente a essa entidade, além de ser subvencionada pela Prefeitura, era ela que determinava o destino dos animais abandonados. O problema com os cães chegou a um ponto em que, pelas leis, são estes os únicos animais mencionados nos itens referentes às obrigações da entidade.

Antônio da Silva Prado encerrou sua longa gestão como prefeito no ano de 1911 sem conseguir resolver o destino dos cães. Mesmo com a iniciativa de se aproximar da UIPA e abolindo o uso
de bolas envenenadas, terminou sua administração sem sucesso nessa área.

Fonte: www2.uol.com.br/sciam/reportagens/fidelidade_e_traicao_entre_caes_e_seres_humanos.html

Nelson Aprobato Filho é doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo com a tese O couro e o aço. Sob a mira do moderno: a “aventura” dos animais pelos “jardins” da Pauliceia, final do século XIX / início do XX, defendida em 2007. Autor do livro Kaleidosfone
– As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo, fins do século XIX – início do XX publicado pela Edusp/ Fapesp em 2008, trabalho originalmente defendido como dissertação de mestrado. Atualmente é teaching assistant e program assistant do Department of Romance
Languages and Literatures da Harvard University, EUA.
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